Discurso midiático e circulação do episódio do Conexão Repórter sobre Maisa Silva nos portais de notícia

  • Jéssica Missias Medeiros Universidade Federal de Santa Maria

Resumo

No mundo de hoje presencia-se a sociedade em constante processo de evolução tecnológica, a qual compreende não somente os meios tradicionais como o impresso, a TV, e o rádio, mas também a ambiência da internet. Nessa sociedade considerada “em vias de midiatização”, seguindo as reflexões de (Braga, 2012), entende-se que há uma reconfiguração das relações entre produtores e receptores, com a emergência da circulação. Seguindo essa linha de pensamento, é preciso investigar a transformação que ocorre com as condições sociais de produção de sentidos, que de acordo com (Pinto, 1999), incluem todo o processo de interação comunicacional - a produção, a circulação e o consumo.


Com o advento das mídias digitais, o antigo formato de jornalismo foi revolucionado. Alguns veículos migraram para a web, e outros já surgiram nela. Hoje, há uma nova maneira de fazer notícias, com tendência imediatista, que preza pela instantaneidade, bem como pelo o poder de propagação de notícia. Dessa forma, não é surpresa que o conteúdo buscado pelo jornalismo tenha mudado, que as rotinas produtivas sejam diferentes do jornalismo dito tradicional, bem como os procedimentos, as prioridades, e modos de produção. 


A internet, sendo esse lugar amplo e com infinitas possibilidades de produção e compartilhamento, abre espaço para a existência de incontáveis portais de notícia, websites, e blogs. E nisto, surge uma cultura participativa na qual produzir conhecimento e disseminar informações está ao alcance de qualquer pessoa que tenha acesso a essa vivência em rede. Sendo assim, o jornalismo digital também assume outras particularidades, já não sendo mais tão determinado pela relevância, interesse público e proximidade do acontecimento. Nesse contexto, é realçada a escolha de valores-notícia como a notoriedade, a amplificação e a personalização. (Traquina, 2005b)


Por muito tempo, antes do sucesso da internet, a categoria de revistas de fofoca era o clickbait ou “caça-clique” do meio impresso. Com nomes fazendo alusão a fofoca, como por exemplo Tititi, Fuxico e Conta Mais, continham na capa títulos e imagens chamativas sobre o meio dos famosos, celebridades e novelas. Normalmente lacradas com plástico transparente, custavam um valor simbólico, pois o que realmente importava eram os anúncios inseridos em sua diagramação ou em papéis à parte no meio da revista. Mas foi no jornalismo digital que essa estratégia se tornou o que é hoje, uma isca para “pescar” o leitor. 


 


A partir da ebulição das mídias sociais em um contexto midiático contemporâneo no qual os apelos visual e comercial falam mais alto, surgiu no jornalismo digital a estratégia batizada como caça-cliques. São chamadas meticulosamente moldadas no intuito de instigar os leitores a clicar nos links para, assim, render mais tráfego ao site onde a notícia se encontra. (Gomes e Costa, 2016)


 


O conceito de celebridade teve seu apogeu no século XX, contexto de indústria cultural, onde tudo se torna mercadoria e fica a fácil alcance das massas. Nessa época a cultura de celebridades se intensificou, tornando-as um produto da economia popular. De acordo com Simões e França, celebridades são pessoas públicas, amplamente conhecidas, admiradas ou detestadas, que são tomadas como modelos ou contra modelos, que suscitam formas distintas de celebração: “[...] elas agregam preocupações, tendências, aspirações que dizem dos públicos que as admiram. Elas exibem traços e características apreciados em uma sociedade em um certo momento” (Simões e França, 2019, p. 6).


Observa-se que existe uma grande demanda de notícias sobre a vida privada das celebridades. A presente pesquisa foi estimulada pela circulação constante de manchetes sobre a jovem atriz e apresentadora Maisa da Silva Andrade, por diversos portais de notícia que tratam do entretenimento - famosos, celebridades, influenciadores. Visando delimitar a pesquisa, a análise tem como foco a circulação que decorreu a partir da entrevista que foi ao ar no dia 17 de junho de 2019, quando o programa Conexão Repórter, apresentado por Roberto Cabrini, da emissora SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), transmitiu uma reportagem extensa sobre Maisa Silva.


O programa tem uma proposta de jornalismo investigativo e de produção de grandes reportagens. Este episódio recordou os primeiros passos da jovem na televisão brasileira, sua trajetória como atriz e apresentadora, seus dilemas, sua relação com os pais e outras questões ligada a sua vida. No entanto, a exibição do programa desencadeou a circulação de manchetes relacionadas especificamente a aspectos relativos ao seu namoro, pois em dado momento, ela diz que apesar de ser bastante receptivo, o pai não permite que ela durma com  namorado. Assim, uma questão que não tomou nem três minutos do programa foi o que posteriormente estava estampada nas páginas dos veículos de notícia. 


Ao perceber que seu nome estava circulando em manchetes carregadas de sensacionalismo, gerando desinformação, Maisa Silva expressou o seu ponto de vista nas rede social twitter. A apresentadora fez uma crítica à mídia após ter conhecimento dos circuitos que tomaram os seus comentários no Conexão Repórter (imagem 1). E adicionou, em um tweet abaixo ao principal: “O dia que vocês me abordarem para entrevistas, a gente conversa sobre o meu relacionamento já que lhes causa tanto interesse” (Maisa, 2019). Ainda, inseriu uma captura de tela da pesquisa de seu nome no Google e as matérias - resultados - que aparecem no topo da página.


 


Imagem 1 - tweet de Maisa Silva após a circulação de manchetes



 


(print de tela)


 


A reportagem em questão que se chamou “O Fenômeno Maisa”, trouxe lembranças e revelações sobre a vida da jovem de 17 anos que cresceu diante das câmeras, tendo participação ou presença fixa em programas como: Programa Raul Gil, Sábado Animado, Domingo Animado, Bom dia & Cia, até o atual Programa da Maisa. Sua primeira aparição na televisão foi quando participou do Programa do Raul Gil, ao três anos, num quadro de calouros e cativou os telespectadores com seu senso de humor. 


Atualmente, a adolescente de 17 anos já tem uma carreira consolidada, e faz sucesso não só com o público da TV, mas também com o público da internet. Desde que apareceu na televisão quando criança lhe eram feitas perguntas sobre namoro e relacionamento e, suas respostas rápidas entretiam o público. Mas junto com o seu crescimento, surgiu um grande interesse na vida amorosa da mesma. Isso faz parte de ser uma celebridade em uma sociedade do espetáculo, teoria cunhada por Guy Debord (1997). O público está interessado na narrativa romântica e cotidiana de uma jovem moça que se apaixona por um rapaz, e vive as consequências desse amor. E assim que os meios noticiosos percebem isso, eles aderem essa estratégia para ganhar mais atenção, leitores e dar conta da emergência da circulação que sempre produz fluxos adiante (Braga, 2017).


A pesquisa faz uma articulação entre os dados empíricos, reunidos do caso, e as proposições e interferências, como proposto na perspectiva de comunicação como disciplina indiciária (Braga, 2007). Além disso analisa o discurso da mídia e os sentidos produzidos por esta, considerando que 


[...] na ‘sociedade em vias de midiatização’, nos deparamos com um novo cenário sócio-técnico-discursivo, que constitui novas interações entre produção e recepção. Estas resultam diretamente, de novas formas de organização de circulação dos discursos. (Fausto Neto, 2010, p. 59)


 


Tendo isto em vista, foram selecionadas, para visualizar a partir de um olhar crítico o episódio comunicacional discutido até aqui, três matérias circuladas em diferentes veículos de comunicação, que são: Metrópoles, Ofuxico e Notícias da TV. Os dois primeiros publicaram matérias referentes ao Conexão Repórter, intituladas, respectivamente, “No Conexão Repórter Maisa fala sobre fama, namoro e sexo” (Metrópoles, 2019) e “Maisa afirma que primeira vez acontecerá na hora certa” (Ofuxico, 2019). E o terceiro se refere à crítica de Maisa à mídia: “Maisa se revolta com repercussão de entrevista” (Notícias da TV, 2019). 


Diante da análise desse episódio comunicacional interacional (Braga, 2017), bem como das marcas deixadas nos discursos produzidos pelos veículos de comunicação, conclui-se que estes não estão preocupados em passar informações legítimas e apuradas. Como visto por Simões e França (2019), sabe-se que as celebridades despertam o interesse e a pauta pública. Logo, esses canais fazem o possível para alcançar engajamento do público, e mesmo sob críticas, das próprias celebridades, o conteúdo e a linguagem registrado pelo portal não sofre mudanças. 


Não é de hoje que a vida privada das celebridades é discutida com afinco, sensacionalismo e imparcialidade. Como visto anteriormente, Maisa é alvo dessa vigilância desde sua primeira infância, e com o seu crescimento isso se intensificou, tornando-se o foco de rumores, fake news e notícias carregadas de sensacionalismo. De modo que, é na ambiência da internet que é possível constatar uma reconfiguração das relações entre os produtores e receptores, os jogos complexos e os embates entre os atores sociais e como eles se desenvolvem nesse cenário - entendido como sociedade em vias de midiatização. 


 

Publicado
2020-10-27
Como Citar
MEDEIROS, Jéssica Missias. Discurso midiático e circulação do episódio do Conexão Repórter sobre Maisa Silva nos portais de notícia. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 4, out. 2020. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1155>. Acesso em: 06 dez. 2022.