A midiatização da fé nas Dioceses do Brasil, no Regional Nordeste V, em meio ao distanciamento social durante a pandemia do COVID-19

  • Carlos Benedito Alves da Silva Junior Universidade Federal do Maranhão
  • Virginia Diniz Ferreira Universidade Federal de Santa Maria

Resumo

Introdução


 


A Igreja Católica do Estado do Maranhão está representada pelo Regional Nordeste V, que é formado pelo conjunto das 12 Dioceses, que compreendem toda a extensão da Unidade Federativa que é o Maranhão, dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O Estado registrou o primeiro caso oficial de COVID-19 em 20 de março de 2020, quase um mês depois do primeiro caso confirmando no Brasil e atualmente registra mais de 150 mil casos e quase três mil e quinhentos óbitos nesta pandemia sem precedentes no último século. Como medida de segurança, a Organização Mundial da Saúde (OMS) sugeriu aos Países afetados protocolos de higiene e distanciamento social.


Todos os campos sociais foram afetados, inclusive, o da religião. Assim, de maneira particular, este trabalho, aborda o catolicismo, considerada, ainda, segundo os últimos CENSOS do IBGE, a religião mais expressiva, em termos de números, no Brasil. Com o protocolo de distanciamento social, a Igreja Católica teve seus templos fechados, junto com os demais setores da sociedade não classificados como de necessidade básica. 


Assim, este trabalho, propõe um início de pesquisa baseado na seguinte problematização: de que maneira a midiatização alterou as lógicas do processo social de vivência da fé que ocorreram nas Igrejas do Regional Nordeste V – Maranhão, durante o distanciamento social imposto como medida protetiva na pandemia do COVID-19?


 


2- A midiatização da religião e novas possibilidades de abordagem durante COVID-19


A pergunta nasce de uma reflexão em cima do processo de midiatização representado no famoso diagrama de Verón (1997), onde o autor explica as alterações dos processos sociais: da mídia com a sociedade, da sociedade entre seus agentes, da sociedade com as instituições e da própria mídia com seu campo. A pandemia, contudo, trouxe complexidades que nasceram de um fenômeno natural e portanto, não partiu de uma alteração midiática advinda de um processo de midiatização conforme costumamos observar e estudar. Porém, suas complicações, somam, sem dúvida, a novas reflexões sobre esse funcionamento.


Existe, no contexto atual da pandemia, uma necessidade de compreender os processos sociais de vivência e experiência da fé, ocorridos dentro da midiatização da religião, especificamente, dentro do catolicismo, durante uma situação atípica e em condições adversas, como a do COVID-19. A Igreja Católica, de modo particular, deparou-se com situações impensadas dentro de seu histórico sobre o estudo e uso dos meios de comunicação social.  


Até então, a Igreja imprimia em suas reflexões mais recentes, pós Concílio Vaticano II, a motivação para uso dos meios de comunicação social para a evangelização. Especificamente, o uso estava atrelado à transmissões de missas, eventos religiosos, como as cerimônias realizadas no Vaticano ou Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e assim por diante. Muitos católicos, também, religiosos e leigos, já estavam inseridos no ambiente digital (PUNTEL, 2005), produzindo conteúdo e trabalhando na evangelização, com fins de catequizar e buscar novos adeptos.


A Religião adequou suas lógicas em vários aspectos devido a mídia (BORELLI, 2009) e em vários outros aspectos coube à mídia estar no centro de seus processos sociais (FAUSTO NETO, 2004) no catolicismo. As próprias missas transmitidas tiveram parte dos ritos sagrados afetados para se adequar a lógica midiática (FLORES, 2010). A midiatização, assim, altera o processo social de experiência da fé, quando em decorrência das medidas de distanciamento social houve a suspensão das realizações de missas comunitárias, sendo permitida, apenas, a realização em culto privado, pelos sacerdotes, fazendo com que a Igreja repensasse suas ações pastorais de vivência da fé valendo-se, dentre outras estratégias, da transmissão dos cultos religiosos por meio de plataformas digitais.


Além das eucaristias comunitárias, foram suspensos outros sacramentos, como: batizados, matrimônio, reconciliação e até mesmo, em casos mais extremos, em alguns lugares, as exéquias. Quanto a este último, houve casos de sacerdotes que chegaram a vir a óbito, em decorrência do COVID-19, por terem sido contaminados durante a administração do sacramento da unção dos enfermos.


Dessa maneira, a partir da problemática proposta e com base nos estudos sobre a midiatização e midiatização da religião, pretende-se apresentar aqui uma pesquisa inicial sobre o processo de midiatização da fé no Regional NEV, durante o distanciamento social com o COVID-19.


Embora esse trabalho realize um recorte de um dos regionais da Igreja do Brasil, entende-se que pode colaborar para o aprofundamento dos estudos sobre midiatização da religião, uma vez que a dinâmica do fenômeno foi ultrapassada por questões fenomenológicas, que é uma pandemia, causada pelo COVID-19.


 


3- As fases do estudo


 


Esse relato representa a primeira fase de trajeto de investigação que pretende seguir em três momentos. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e interpretativo, baseada em dados empírico teóricos. Como técnica, para esta primeira fase, utilizar-se-á a Pesquisa de Campo, com questionários online, distribuídos em todas as Dioceses do Regional Nordeste V, para todos os bispos e párocos de suas respectivas dioceses e partir da aplicação, análise interpretativa de dados.


            Para análise, recorre-se as teorias da Midiatização e Midiatização da Religião, com tensionamentos feitos a partir da análise do material coletado, e à luz dos documentos da Igreja sobre a Comunicação, especificamente: Inter Mirífica, Diretório da Comunicação (Doc 99, CNBB) e Comunidade de Comunidades (Doc. 100, CNBB).


A pesquisa compreenderá três fases, seguindo esta ordem:


Nessa primeira fase, foi realizado o contato com Presidência do Regional Nordeste V, para fins de autorização e reunião dos números de telefone e e-mails dos responsáveis pelas Dioceses e dos respectivos padres que respondem pelas paróquias alí localizadas. Em seguida, estão sendo enviados questionários na plataforma GoogleForms para esse público de interesse.


Para cada um dos atores sociais entrevistados, são aplicadas questões específicas com fins de aferir as estratégias comunicacionais adotadas e comparar com as ações já existentes, em termos de comunicação. E desse modo, perceber as alterações de lógicas midiáticas e da fé que aconteceram durante o processo de midiatização, no distanciamento social imposto pela pandemia do COVID-19 nas Igrejas do Regional Nordeste V.


 


4 – Considerações


 


            Assim, com a primeira fase desta pesquisa, teve como objetivo perceber que tipos de ações foram tomadas pelas autoridades eclesiais, uma vez que eram as responsáveis pela administração dos sacramentos e ritos da fé no Regional Nordeste V. Com as entrevistas com os bispos e os padres, pretende-se aprofundar as questões na segunda fase da pesquisa, que abordará as ações feitas pela Pastoral da Comunicação. E em seguida, na terceira fase, com o cruzamento das demais informações e os pontos emergentes que forem sendo descobertos, aplicar-se-á a pesquisa nas demais pastorais e movimentos.


            Com o resultado, pretende-se avançar em aspectos novos que a pandemia fez surgir com o COVID-19, no que diz respeito a midiatização do catolicismo.


 


 


REFERÊNCIAS


 


BORELLI, Viviane. Midiatização, dispositivo e os novos contratos de leitura geram uma outra religião. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação, Santa Maria, v. 2010, p. 1-15, 2010a.


 


BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. In: “Gênese e estrutura do Campo Religioso”. São Paulo: Perspectiva, 2002.


 


BRAGA, José Luíz. A prática da pesquisa em Comunicação: abordagem metodológica como tomada de decisões. E-Compós, Brasília, v. 14, n.1, jan./abr. 2011.


 


CONCÍLIO VATICANO II. Inter Mirífica. In: VIER, Frederico. Compêndio do Concílio Vaticano II: Constituições, decretos e declarações. 29 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.


 


FAUSTO NETO, Antônio. Processos midiáticos e construção das novas religiosidades: dimensões discursivas. 2002.


 


FAUSTO NETO, Antônio. Midiatização, prática social, prática de sentido. Papes, Bogotá: Seminário Mediatização, 2006.


 


FAUSTO NETO. Fragmentos de uma “analítica” da midiatização. Revista Matrizes. São Paulo: ECA/USP, ano 1, nº 1, 2008, pp. 89-105.


 


FLORES, Ana Cássia. Práticas midiatizadas da Canção Nova na Internet: afetação de lógicas comunicacionais católicas e midiáticas. Dissertação de mestrado. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Programa de Pós-graduação em Comunicação, 2010.


 


GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2008.


 


GOMES, Pedro Gilberto. A midiatização no processo social. In: A filosofia e a ética da Comunicação na midiatização da sociedade. São Leopoldo: Unisinos, 2006. P. 111-135.


 


GOMES, Pedro Gilberto. Da Igreja eletrônica a sociedade em midiatização. São Paulo: Paulinas, 2010a.


 


GOMES, Pedro Gilberto.A metodologia como problema para pesquisa em mídia e religião. Midiatização e processos sociais: aspectos metodológicos. Edunisc: Santa Cruz do Sul, 2010b. p.144 - 156.


 


MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Jesús Martín-Barbero; Prefácio de Néstor García Canclini; Tradução de Ronald Polito e Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 1997.

Publicado
2020-10-27
Como Citar
JUNIOR, Carlos Benedito Alves da Silva; FERREIRA, Virginia Diniz. A midiatização da fé nas Dioceses do Brasil, no Regional Nordeste V, em meio ao distanciamento social durante a pandemia do COVID-19. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 4, out. 2020. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1174>. Acesso em: 10 dez. 2022.