Afrocentricidade

Notas sobre uma abordagem teórico-metodológica para pesquisa em Comunicação

  • Joselaine Caroline UFRGS
  • Enéias Brum UFRGS

Resumo

O presente texto tem como objetivo articular o paradigma da afrocentricidade, enquanto abordagem teórico-metodológica para pesquisas em comunicação dentro do panorama dos sujeitos em diáspora africana que vivem em sociedades midiatizadas, mediadas pelas instituições midiáticas construídas sob perspectivas eurocêntricas.


Posto que "[...] diferentes pesquisas solicitam aproximações diferentes, conforme suas perguntas e objetos" (BRAGA, 2011, p. 2), nos aportamos em princípios metodológicos básicos nos estudos de Cultura e Comunicação cujos sentidos das ações estão no nível ideológico, e que por meio de produtos culturais questionam o sistema de dominação que residem no significado social (LOPES, 2014). 


A afrocentricidade, apresentada no ano de 1980 pelo filósofo afro-americano Moléfi Asante, se mostra útil e aplicável para alcançar objetos que historicamente foram tratados como periféricos ou marginais dentro do campo, como é o caso da questão étnico-racial, entre outras, que normalmente se encontram às bordas da mídia e da sociedade. 


Pesquisas com objetos culturalmente não-hegemônicos necessitam de abordagens que realmente se aproximem de seus objetos, pois Asante diz que, frequentemente, as discussões dos fenômenos africanos são tratadas "com base naquilo que pensam, fazem e dizem os europeus" (2009, p. 97). Assim, a abordagem afrocentrada (ASANTE, 2009) surge como uma opção teórico-metodológica para pensarmos inúmeros aspectos comunicacionais que envolvam pessoas negras em diáspora, conforme apresentaremos a seguir.


 


2 CARACTERÍSTICAS DE UMA PESQUISA AFROCENTRADA


 


A afrocentricidade é um paradigma construído a partir dos processos de conscientização política das pessoas negras na compreensão de que a sociedade colocou suas agências, experiências e localização na marginalidade dos processos socioculturais. 


A mídia jornalística e a opinião pública, mesmo que não correspondam integralmente à realidade, influenciam os atores sociais, cujas ações são realizadas a partir das percepções do mundo (VERÓN, 2014; HJARVARD 2014), os padrões eurocêntricos ao serem tomados como universais, e por conseguinte, posicionam as pessoas não-brancas nas bordas do mundo social contemporâneo. 


Primeiramente, se faz relevante entender que, conforme define Asante (2009, p. 93), "a afrocentricidade é um tipo de pensamento, prática e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos". Defendemos a afrocentricidade não somente como uma possível articulação teórica, mas também como abordagem metodológica pois, conforme Asante (2009, p. 107), devemos "[...] procurar a agência africana em toda construção metodológica", refletindo sobre referências culturais africanas desde a criação de instrumentos de pesquisa até a criação de "[...] métodos que conduzirão à transformação no texto, nos fenômenos e na vida humana".


O percurso metodológico pode ser construído a partir da revisão das cinco características mínimas que Asante (2009) descreve para um projeto afrocentrado: interesse pela localização psicológica; compromisso com a descoberta do lugar do africano como sujeito; defesa dos elementos culturais africanos; compromisso com o refinamento léxico; e compromisso com uma nova narrativa da história da África.


Interessar-se pela localização psicológica pode ser visto como uma resposta à posição marginal à qual os negros e negras são submetidos historicamente pelas forças hegemônicas. Como ponto de partida de uma análise sobre narrativas e práticas midiáticas que envolvem pessoas e personagens negras, deve-se questionar se os valores desses sujeitos estão posicionados como eixo ou deslocados à margem de maneira acessória a contextos orientados por culturas não-negras. De acordo com Asante (2009, p. 96, grifo do autor), se a pessoa que pesquisa "[...] se refere aos africanos como 'outros', percebemos que os vê como diferentes de si mesma". Dessa forma, além de direcionar a perspectiva sobre os sujeitos em um projeto afrocentrado, o autor destaca como pessoas não-negras devem operar uma pesquisa sobre assuntos relacionados à elementos e esferas da cultura negra e seus atores sociais: "evidentemente, se a pessoa não é africana mas tenta fazer uma análise afrocêntrica, o que se observa é sua capacidade de olhar os fenômenos do ponto de vista dos próprios africanos" (ASANTE, 2009, p. 97).


Além do caráter psicológico, a busca pela centralidade está presente no compromisso com a descoberta do lugar do africano como sujeito. O que está em questão nesse ponto é a agência dos africanos. Se partimos do pressuposto de que negros e negras são marginalizados socialmente e isso é refletido na (e pode-se dizer, construído pela) comunicação midiática, poucas vezes encontraremos as pessoas negras já posicionadas ao centro dos objetos de pesquisa. Por isso a importância de que o lugar que esses sujeitos ocupam sejam observados e analisados cientificamente. Conforme Asante (2009, p. 97), a crítica do pesquisador poderá apontar para possíveis novos rumos da história de pessoas de origem africana no caso de assumir "[...] o compromisso de descobrir onde uma pessoa, um conceito ou uma ideia africanos entram como sujeitos em um texto, evento ou fenômeno".


A proposta avança para além dos sujeitos quando sugere a defesa dos elementos culturais africanos. A reprodução midiática de contextos sociais, ambientes residenciais, religiões de matriz africana, música de origem negra e outros traços que compõem as culturas africanas deve ser analisada sob uma perspectiva de conhecimento e respeito às suas origens. Avaliar se a comunicação aborda essas culturas de maneira fidedigna à forma como as pessoas negras se relacionam com elas, ou se usa de estereótipos e preconceitos se faz possível, seguindo diretrizes de um projeto afrocentrado, se "[...] o afrocentrista encontra, tanto quanto possível, a autêntica compreensão africana desses elementos, sem impor interpretações eurocêntricas ou não-africanas" (ASANTE, 2009, p. 98).


Um dos elementos culturais fundamentais é o léxico utilizado para construir narrativas midiáticas relacionadas aos povos africanos. Desvelar os significados ativados pela comunicação é uma das características fundamentais do processo de uma investigação orientada pela perspectiva africana. O que se recomenda, a partir das ideias de Asante (2009) é que o pesquisador não infira algo sobre uma pessoa ou contexto sem buscar a maior proximidade possível com os significados compartilhados por quem compõe o objeto de estudo. Através da "[...] compreensão da natureza da realidade africana", possivelmente a pesquisa diminui o risco de reproduzir discursos que reduzem a população africana "[...] à condição de seres indefesos, inferiores, não-humanos, de segunda classe, como se não fizessem parte da história humana e fossem, em algumas situações, selvagens" (ASANTE, 2009, p. 99).


Por fim, o compromisso com uma nova narrativa da história da África contribui ao tirar o foco do pesquisador do tempo presente para avaliar a articulação da comunicação com a negritude. Assim, o direciona para uma revisão dos movimentos históricos que inter-relacionam o objetivo de estudo à população negra. Pesquisar a emergência das representações da negritude requer conhecer os primeiros movimentos realizados no sentido de incluir sujeitos negros nas análises sobre comunicação midiática.


 


3 CAMINHOS PARA A PESQUISA AFROCENTRADA EM COMUNICAÇÃO


 


A abordagem afrocentrada colabora no movimento de valorização epistêmica das experiências dos sujeitos, e consideramos que ela pode ser aplicada, dentro das pesquisas de comunicação. Portanto, pensar a localização, agência, os compromissos narrativos, elementos culturais e localização psicológica das pessoas negras em pesquisas é um ganho para a ciência, para a universidade e para a sociedade. É preciso descolonizar o pensamento acadêmico pautado no eurocentrismo, e essa mudança, 


 


[...] tem de ser acompanhada por uma ruptura epistemológica, política e social que se realiza também pela presença negra nos espaços de poder e decisão; nas estruturas acadêmicas; na cultura; na gestão da educação, da saúde e da justiça: ou seja, a descolonização, para ser concretizada precisa alcançar não somente o campo da produção do conhecimento, como também as estruturas sociais e de poder. (GOMES, N. 2019, p. 225 e 226). 


 


Sueli Carneiro (2003), em um recorte específico sobre a mulher negra, afirma que não é suficiente a comunicação midiática reproduzir representações dos novos papéis sociais conquistados pelas minorias no mundo social. Ao propor o foco nas potencialidades ainda não concretizadas em ações facilmente perceptíveis socialmente, a autora desafia a comunicação midiática a agir ativamente na reconstrução de sistemas de representação positivos em torno da imagem da mulher negra, desligando-a dos clássicos estereótipos subalternos. Essa perspectiva dialoga com a visão afrocêntrica na medida em que considera que "todo conhecimento deve ser emancipador" (ASANTE, 2009, p. 104).


O projeto afrocêntrico possibilita uma maior autonomia de pesquisa e aproximação dos objetos, e "no sentido político, autonomia significa ter liberdade para fazer escolhas, para tomar decisões, independentemente das ideias, influências, interesses, pareceres ou intenções de outrem" (GONÇALVES, 2017, p. 47). Nilma Lino Gomes evidencia que é preciso mais do que “apenas o reconhecimento e a vontade política para descolonizar a mente, a política, a cultura, os currículos e o conhecimento” (GOMES, 2019, p. 225). Construir objetos de pesquisas invisibilizados ou construídos através do olhar eurocêntrico requer novas formas e aportes teórico-metodológicos, além daqueles já conhecidos, que muitas vezes não contemplam objetos de estudo não-brancos e experiências negras, que têm sido cada vez mais evidenciadas através dos circuitos sociais e midiáticos. 


A afrocentricidade colabora na ressignificação da imagem e cultura das pessoas negras ao colocá-las no centro de suas próprias narrativas, pois “[...] a condição do Ser é primordial à manifestação do Saber.” (RUFINO, 2017, p. 29, grifo do autor). Asante (2009) afirma que a forma como as pessoas interpretam seus objetos de pesquisa é mais relevante que os dados obtidos. E lança o desafio de reconstruir os modos de pesquisar, desligando-se dos consagrados modelos europeus:


 


Nosso objetivo como intelectuais é fornecer ao mundo a análise mais válida e valiosa possível dos fenômenos africanos. Isso significa que devemos abandonar muitos elementos da pesquisa histórica, particularmente sua exagerada ênfase nos textos escritos, e introduzir novas maneiras de deslindar o significado da vida dos africanos nas favelas do Rio de Janeiro e nos subúrbios abastados de Lagos. (ASANTE, 2009, p. 105-6).


 


As contribuições aqui propostas resumem uma abordagem frutífera para análises sobre comunicação em diversos esferas, como práticas de produção, circulação, análises de produtos midiáticos, representação identitária na comunicação, processos de recepção e consumo e outras abordagens. Para além dos objetivos do texto, nosso intuito é colaborar efetivamente no desenvolvimento de pesquisas realizadas por sujeitos que não encontram aportes teóricos-metodológicos e abordagens que realmente contribuam de forma palpável na análises e investigações que buscam alcançar objetos e fenômenos que extrapolam os limites impostos pelas instituições eurocêntricas.




Biografia do Autor

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Doutoranda em Comunicação (UFRGS)

Mestra em Comunicação (UAM)

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Mestrando em Comunicação no Programa de Pós-graduação da UFRGS

Publicado
2020-10-27
Como Citar
CAROLINE, Joselaine; BRUM, Enéias. Afrocentricidade. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 4, out. 2020. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1206>. Acesso em: 17 jan. 2022.