Lutas por sentidos na circulação em tempos de mediatização profunda

  • Tâmara Caroline Almeida Terso UFBA

Resumo

Os casos de violência policial motivados pelo racismo novamente ganham visibilidade em 2020 a partir de eventos compartilhados na internet. No mais recente caso em agosto, um vídeo flagra policiais brancos baleando um homem negro, Jacob Blake, três meses depois do assassinato de George Floyd, vítima fatal da violência policial nos Estados Unidos. Os vídeos foram filmados por jovens negrxs que presenciaram as cenas de violências e divulgaram em suas contas pessoais, nas plataformas de redes sociais Facebook e Twitter. A visualização dos vídeos em suas primeiras horas passou de milhões e a circulação dessas imagens foi significativa no estopim de mobilizações permanentes, exigindo o fim do racismo nos EUA e em outras partes do mundo.


A circulação dessa materialidade mobiliza lutas por sentidos em processos de mediação nos quais os meios de comunicação de massa não são os únicos protagonistas na construção do discurso. Isso porque os fluxos contínuos de comunicação, provenientes de enunciadorxs individuais, coletivos de indivíduos e instituições, como as plataformas de redes sociais e suas economias internas de funcionamento orientadas pela modulação de algoritmos[1], integram circuito complexo de comunicação, no qual o ambiente da circulação torna-se uma instância de produção difícil de desconsiderar. O processo de mediação na construção da realidade, em sociedades em fase de mediatização profunda (Couldry e Hepp, 2017), é reconfigurado por agencias de coletividades mediatizadas cujos processos de sociabilidades operam através de das mídias, coletividades imaginadas só possíveis através das tecnologias de comunicação e informação, e experiências coletivas projetadas através da captura de dados, deixados por indivíduos em suas interações sociais atravessadas pelas mídias e recirculada na construções de sentido operadas pelas plataformas. Diversos atores sociais assumem o papel da mediação ao passo em que são reveladas mudanças estruturais e de longo prazo decorrentes da interrelação entre mídias e sociedades.   


Nos casos da cobertura midiática sobre a violência racial nos EUA, a produção de sentido emerge da circulação dos discursos individuais e coletivos em contato com os discursos dos jornais, plataformas de redes sociais e demais instituições como agencias de pesquisa e o parlamento. Vale ressaltar que a ambiência da circulação enquanto zonas de contato (Fausto Neto, 2018) forma circuitos comunicativos com contingências estruturadas pela desigualdade no acesso a internet, monitoramento automatizado (métricas como critérios de noticiabilidade) e aspectos referentes às tensões nas relações sociais em determinado tempo histórico. 


Em episódios como os de George Floyd e Jacob Blake a contínua reorganização discursiva das coberturas jornalísticas sobre os protestos antirracistas no Brasil e o “aparecimento” das denúncias sobre o papel da plataforma Facebook no fomento do discurso de ódio contra negrxs parecem mobilizar lutas de sentidos no interior da circulação com fluxos de comunicação que 1) defendem os protestos como atos de legítima defesa e denuncia contra o racismo (movimentos antirracistas enquanto coletividades mediatizadas) 2) acreditam que os protestos são um ataque aos estados unidos, sobretudo porque são organizados por negrxs já visto como um desvio na sociedade (indivíduos agrupados por ferramentas de recomendação das plataformas de redes sociais enquanto comunidades imaginadas que disseminam discurso de ódio) e 3) trabalham para manter a ordem pública por todos os meios (instituições como meios de comunicação, plataformas e agentes de estado). Assim, um olhar apurado para as condições de circulação como produtoras de discursos e práticas sociais é um dos principais estágios para a construção de sentido nas sociedades mediatizadas.


Já no modelo de comunicação Encoding/Decoding de Stuart Hall vemos uma crítica a linearidade do modelo emissor/mensagem/recepção e a proposta de complexificação deste circuito com a alternativa produção/circulação/ distribuição/consumo e reprodução. Naquela época Hall (2003) estava interessado na recepção dos programas de TV e suas complexidades, partindo das diversas possibilidades de relação entre as instâncias de produção e reconhecimento em contextos sociais. Reservada as diferenças estruturais das mídias no séc. XX e nesta fase da mediatização, a reflexão que nos interessa é pensar a forma como o autor trata o momento de circulação como uma importante instância de produção do sentido: "...circulação e recepção são, de fato, "momentos" do processo de produção na televisão e são reincorporados via um certo numero de feedbacks indiretos e estruturados no próprio processo de produção." (p.392).


Na cobertura jornalística do assassinato de George Floyd, jornais brasileiros e norte-americanos como GloboNews e CNN foram acusados nas redes sociais de retratarem os protestos antirracistas com viés preconceituoso, construindo um sentido de violência deliberada para as manifestações, ao mesmo tempo em que reproduziam o racismo com a falta de  jornalistas negrxs em suas bancadas:


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


Fonte: Tweet do jornalista esportivo, Irlan Simões em sua conta pessoal no Twitter.


 


 


 


 


 


 


 


Para Soster (2008), a atividade jornalística passa pela “terceira descontinuidade”[2] provocada pelo fenômeno da midiatização, um processo evolutivo que concebe a atividade comunicativa em rede, transformando a sociedade e sendo atingida por essas transformações.  As consequências analíticas desse processo são muitas, entre elas, a insustentabilidade da produção e reconhecimento dos sentidos como pólos independentes e seletivos as afetações econômicas, políticas e tecnológicas.


Como resposta às denuncias de racismo, a GloboNews disse ter “entendido o recado” e em uma edição do programa “Em Pauta” promoveu um encontro com boa parte dos seus jornalistas negrxs para tratar dos protestos e do racismo nos Estados Unidos e no Brasil.


 


 


 


 


 


 


 


 


Fonte: Programa “Em pauta” no dia 03 de Junho de 2020


 


 


Na na paisagem mediática ocorrer um reaquecimento do debate sobre o racismo estrutural, que segundo (Almeida, 2019) constitui a naturalização das desigualdades raciais nas instituições e vida cotidiana. E percebemos que no caso do jornalismo feito pela GloboNews essa disputa de sentidos sobre o racismo foi feita pela pressão realizada no interior das Zonas Intermediárias de Circulação- ZIC, espaços em que os circuitos múltiplos de comunicação se encontram e geram a reorganização das enunciações jornalísticas (Soster et al., 2017).


Em meio a mudanças das enunciações jornalísticas sobre o tema do racismo, acompanhamos o desdobrar das enunciações vindas de outras instituições: as plataformas de redes sociais. Nos contextos de crescimento das denuncias de violência racial nos Estados Unidos, com a campanha “BlackLivesMatter” ganhando adeptos em todo o mundo, pesquisas da Tech Transparency Project mostraram que o Facebook lucrou com impulsionamento de mensagens de ódio organizadas em páginas de supremacistas brancos, alguns chamados de Boogaloo Moviment. Essas informações somam-se com antigas denuncias de que já em 2016 o crescimento de grupos extremistas na plataforma devia-se, em grande medida, a ferramentas de recomendações da rede. Nesse momento, o discurso da plataforma em solidariedade aos negrxs e em apoio ao antirracismo é atravessado por fluxos de comunicação como a campanha “Stop Hate For Profit”, pedindo o boicote de grandes marcas à rede.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


Fonte: Matéria na Revista eletrônica Exame. Em 01.06.2020


 


 


 


 


 


 


 


 


 


Fonte: Matéria do blog Link, do Estadão, em 30.06.2020


 


Em resposta, a plataforma realiza processos de remoção de conteúdos supremacistas brancos, contudo, novos fluxos de comunicação apontam que as remoções comparam supremacistas brancos à antirracistas, antifacistas e demais organizações de luta por direitos civis. Além disso, a plataforma é pressionada por senadores do parlamento americano, que em 30 de junho exigem respostas do CEO Mark Zuckerberg sobre as possíveis ações realizadas para conter o discurso de ódio nas suas redes.   


O conceito de mediatização nos mobiliza a refletir neste caso os atravessamentos do campo da comunicação em mudanças e mudando a reação dos demais campos sociais como um meta-processo. O fenômeno não se restringe à contemporaneidade e na abordagem das “ondas de mediatização” apresentada por Andreas Hepp e Nick Couldry (2017) acontece desde o séc XV “mutatis mutante” deixando transformações de longo prazo e “efeitos laterais”. Na “onda” de mediatização profunda, em que coexistem digitalização e dataficação, as “manifold media” ou mídias múltiplas como smartfones tem demandado o desenvolvimento de inúmeras capacidades dos indivíduos desde o exercício cinegrafista ao letramento em linguagem de programação, conhecimentos que potencializam a construção de sentidos e que podem abalar enunciações aparentemente estáveis. O uso do celular em abordagens policiais, por exemplo, é um dispositivo que tem se tornado importante na denuncia de violações dos direitos. Para tanto, é preciso questionar os rastros de dados deixados dessas tecnologias e se perguntar se eles também constroem fluxo de comunicação contínua na ambiência da circulação. As tendências geradas por esses dados, através de coletas e tratamentos tornaram-se domínio privado das empresas de comunicação, que para operarem como condições de circulação do discurso, nos casos de direcionamento de conteúdos e recomentações, atuam como um fluxo de comunicação de origem aparentemente opaca, e com possibilidades reais de ter viés racista (Silva, 2019a).


Rafael Grohmann (2019) apresenta uma perspectiva da circulação dos sentidos como aporte teórico-metodológico para “desnaturalizar” os dados digitais e operações de circulação na internet. Ele propõe o rastreamento da construção de sentido, nos/dos “contextos de circulação” interseccionalizados por marcadores como gênero, raça, territorialidade, classe e outros. A naturalização dos dados faz com que a sociedade perceba, de maneira geral, um efeito de objetividade das informações na internet, porém a realidade não se sustenta pelo simples fato das informações serem construídas em regimes de agenciamentos como o tratamento de dados realizados através de valores sociais e econômicos, que reproduzem desigualdades, chamados de colonialismo de dados (Shahin, 2019; Silva, 2019b) Além do rastreamento dos percursos realizados por esse fluxo de comunicação acreditamos que é necessário entender qual é o seu papel nas ZICs, com a finalidade de capturar relações dúbias, Além da sua capacidade de intervenção nas direções ascendentes e descendentes da circulação hipermidiatizada (Carlón, 2020). A possibilidade de mapear as condições de circulação abertas pela observação das lutas de sentido, como nos casos de violência racial, expõe as instituições mediáticas a tal ponto que pode nos ajudar a entender um pouco melhor tais fluxos de comunicação.


 


 


 


 


Referências

 


ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.


CARLÓN, Mario. Tras los pasos de Verón… Un acercamiento a las nuevas condiciones de circulación del sentido en la era contemporánea. Galáxia (São Paulo), v. 2, n. 43, p. 5–25, 2020.


COULDRY, Nick.; HEPP, Andres. The mediated constrution of reality. Cambridge: Press Street, 2017.


FAUSTO NETO, Antônio. Circulação: trajetos conceituais. Rizoma, v. 6, n. 2, p. 08-40, dez. 2018.


GROHMANN, Rafael. Os rastros digitais na circulação de sentidos : pela desnaturalização e contextualização de dados na pesquisa em comunicação. Galaxia, n. 42, p. 150–163, 2019.


HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidade e Mediações culturais. Belo Horizonte; Brasília: Editora UFMG; UNESCO, 2003.


SHAHIN, Saif. Facing up to Facebook: how digital activism, independent regulation, and mass media foiled a neoliberal threat to net neutrality. Information Communication and Society, v. 22, n. 1, p. 1–17, 2019.


SILVA, Tarcízio. Racismo Algorítmico em Plataformas Digitais : microagressões e discriminação em código. VI Simpósio Internacional LAVITS - Assimetrias e (In)Visibilidades: vigilância, Gênero e Raça, p. 1–17, jun. 2019a.


___. Teoria Racial Crítica e Comunicação Digital : conexões contra a dupla opacidade. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - 42° Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, set. 2019b.


SODRÉ, Muniz. Circular e Morar. In: CASTRO, C. P. (Ed.). . A circulação discursiva: entre produção e reconhecimento. Maceió: EDUFAL, 2017. p. 15–24.


SOSTER, Demétrio de Azeredo; CIECELSKI, Luana.; BARTZ, Rodrigo; CARLOTTO, Tiago Haas. Os circuitos Múltiplos e as Zonas intermediárias de Circulação. II Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, 2017.


SOSTER, Demétrio de Azeredo. Midiatização, a terceira descontinuidade do jornalismo. Biblioteca Online de Ciências da Comunicaçao - LABCOM, p. 1–11, 2008.


 


 


 


 


 


[1] Programações de algoritmos seguindo determinados parâmetros provenientes de tendências coletadas por mineração e análise de grandes dados contendo viés de discriminações disseminadas por humanos que programam as máquinas.   


[2] Segundo Soster (2008) as descontinuidades do jornalismo foram a invenção da prensa no século (1850), a informatização (1970) e a midiatização (2000).

Publicado
2020-10-27
Como Citar
TERSO, Tâmara Caroline Almeida. Lutas por sentidos na circulação em tempos de mediatização profunda. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 4, out. 2020. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1243>. Acesso em: 17 jan. 2022.