Midiatização de homens trans nas redes sociais e websites: estudo de caso Lucca Najar

  • Geovane Pereira da Silva Universidade Federal do Piauí (UFPI)
  • Nilsângela Cardoso Lima Universidade Federal do Piauí

Resumo

A discussão sobre gênero, nesta última década, tem ganhado espaço em novelas, documentários, séries, conteúdos jornalísticos e na mídia como um todo. Com as plataformas digitais, estes temas têm sido pautas constantes, sobretudo quando apresentadas por grupos ativistas e/ou por indivíduos que se tornaram celebridade através as redes sociais e que são considerados sujeitos influencer. Um destes exemplos que se pode destacar, quando se trata de conteúdos sobre homens trans, é do videomaker e youtuber mineiro Lucca Najar, de 27 anos. Em seus vídeos compartilhados nas redes sociais, ele exibe seu processo transição, que iniciou em 2015, bem como trata das dificuldades médicas, jurídicas (nome social e documentação) entre outras questões do dia a dia. Hoje, o canal de Lucca Najar conta com 101 mil inscritos, e possui 138 vídeos publicados. Além de midiatizar sua vida na plataforma do YouTube, Najar utiliza o Instagram para expandir seus conteúdos, concede entrevistas para mídia, participa de eventos e posiciona-se como ativista em explicar sobre transexualidade ao público cisgênero.


Dada a importância que do influencer na sociedade contemporânea e midiatizada, o presente trabalho apresenta um estudo sobre a atuação de Lucca Najar nas redes sociais e na mídia, através de entrevistas publicadas nas plataformas digitais YouTube e Instagram e dos vídeos que ele disponibiliza na internet a fim de analisar o processo de midiatização dos homens e a construção da identidade do grupo. Para tanto, será adotada a metodologia de Estudo de Caso. De acordo com Duarte (2008), o Estudo de caso possibilita a utilização múltiplas ferramentas, conceitos teóricos, dados, aspectos históricos e sociais, para levantar informações pertinentes em torno do objeto estudado. A autora ainda pontua que esta metodologia é bastante utilizada em pesquisas nas Ciências Sociais, podendo ser considerado um método qualitativo, mas que também quantitativo. Na modalidade qualitativa pode-se invocar explicação e/ou exploração.


Para além da questão metodológica, o referencial teórico é pautado no conceito de midiatização, aqui entendido como um processo de interação e mediação de ações, ideias e comportamentos por meio de dispositivos. Nesse sentido, dialoga-se com Fausto Neto (2008) que aponta que o conceito de midiatização surgiu concomitante ao desenvolvimento das transformações societárias (pós-industrias), como novas formas de interação ligadas ao uso de tecnologias como novos meios e diferentes lógicas sociais. Segundo Fausto Neto (2008, p. 96), “com a emergência das mídias, os discursos de campos sociais passam a ser enunciados segundo novas regras de inteligibilidades, e assim deslocados pelas tecnologias de comunicação para uma nova forma de ser da «esfera pública»”.  Na contemporaneidade, as redes sociais e digitais têm protagonizado youtubers de maneira que tal comportamento tem contribuído para a construção e circulação de narrativas plurais sobre questões sociais, como a transexualidade.


Não o bastante, Ferreira (2006, 2007) apresenta um modelo geral de midiatização como relações sociais e intersecções entre dispositivos midiáticos, processos sociais e de processos de comunicação. O autor defende a ideia de midiatização para além de um suporte e/ou dispositivo. De acordo com Ferreira (2007, p. 11):


 


Pensar para além dos limites da tecnologia como ideologia, é necessário compreender, na construção do conceito de midiatização, que essa é produzida, induzida(s) e regulada pelo conjunto das relações e intersecções entre processos sociais e processos de comunicação, incidindo sobre as materialidade dos dispositivos midiáticos em seu conjunto (espaço, tempo, agenciamentos signicos, técnica e tecnologia), e não apenas em uma das suas dimensões.


 


Genari (2017) se propôs a analisar processos de identificação de gênero e transexualidades em mídias digitais. A pesquisadora aponta para ganhos nos movimentos feito por pessoas transexuais sobretudo para mulheres, ao mesmo tempo percebe a individualização na perspectiva de disputa por uma imagem de maior aceitação desses sujeitos em plataformas digitais. Segundo observações da autora, um dos objetivos iniciais de pessoas trans ao criarem páginas no Facebook, canais no YouTuber e publicarem textos em blogs está em preencher a ausência sobre informações sobre o cotidiano de pessoas trans, bem como trocar experiências e proporcionar a representatividade transexual no meio social.


Considera-se ainda importante discutir o conceito sobre transexualidade, que neste trabalho será analisado à luz da identidade. Bento (2006, 2008) é uma das pioneiras a desbravar o campo de estudos de gênero sobre transexualidades no Brasil e questionar a patologização transexual, defendendo a transexualidade como processo de subjetivação; em que os sujeitos se percebem e se auto representam de maneiras plurais através de suas identificações ao logo de suas vivenciais. Já Butler (2018), sobre o gênero enquanto identidade, aponta para questões de construção de sentidos sociais também se fazem nas reflexões sobre gênero. Com isso, autora defende que as realidades de gênero são criadas mediantes a performances sociais contínuas nas noções de masculinidade e feminilidade verdadeiras e fixas.


À luz do referencial teórico e metodológico proposto, analisa-se as entrevistas videomaker e youtuber mineiro Lucca Najar que se encontram disponíveis em websites e redes sociais. Dentre as entrevistas analisadas, destaca-se a que foi publicada em maio de 2018 na revista Glamour[1], que é integrante da Empresa Globo de Comunicações, na qual Lucca fala sobre suas experiências de vida. Questionado sobre quando decidiu compartilhar sua história no YouTube, Najar diz que: “Para mim, a transexualidade sempre foi psicológica, mas as pessoas se preocupavam muito com o físico. Namoro há três anos, desde antes da transição, e minha namorada sugeriu fazer os vídeos para falar sobre os lados social e psicológico desse processo”. Observa-se no depoimento do youtuber duas questões importantes: a mudança física e o fator social e psicológico. Segundo Bento (2006, 2008), em seus estudos com pessoas trans, o físico e o reconhecimento de gênero pela sociedade são alguns dos fatores que impactam na vida de pessoas trans. Além disso, outro ponto de preocupação é o da identificação e da identidade dos sujeitos que passaram um processo de “transição” e que tem impacto direto no psicológico e no social. Assunto ainda pouco discutido pela grande mídia, embora se reconheça algumas pautas que tratam da questão em determinados programas de televisão, por exemplo. Contudo, considerando que a ferramenta YouTube abre possibilidades para sujeitos até então anônimos se tornem fenômenos e influenciem outros sujeitos sociais por meio da midiatização de vida e dos problemas que inquietam os sujeitos e determinados grupo, é que se observa o quando Lucca alcança certo protagonismo social por meio das redes e influencia novos comportamentos, atitudes e até mesmo a aceitação de si ao compartilhar suas experiências.


O vídeo mais visualizado no canal do Lucca Najar, com 453.326 visualizações e 24 mil curtidas, tem como título “Homem Trans Menstrua? - Lucca Responde #1”, publicado em 27 de novembro  de 2016. No vídeo, o Lucca aborda sobre o fato biológico de homens trans terem corpos femininos e como é transitar por essa situação no meio social, sem tabus o youtuber fala sobre sua vivência, a questão biológica da binaridade dos corpos são pontos refletidos por Bento (2006, 2008) e Butler (2018), as estudiosas apontam para as formas de enquadrar/delimitar os sujeitos em sistemas sobre o que ser homem ou mulher dentro de elementos corporais, e como a identidade gênero está para além desta binaridade fixa. Numa ótica mais ampla, voltada para midiatização da transexualidade, podemos apontar para o canal do Lucca Najar como ferramenta social de quebra de estigmas (processo social), por se tratar de uma realidade de um grupo que é mediada e disseminada em uma plataforma digital (processo de comunicação), e como este conteúdo alcançou milhares de pessoas, promovendo outros olhares, que não seja apenas o clínico, mas sim o de quem vive a transexualidade.


Assim, observa-se que plataformas digitais, a exemplo do YouTuber, e sites como mídias digitais possibilitam a disseminação de experiências transexuais, como no caso de Lucca Najar. Tais narrativas midiatizadas por Lucca, para além do fenômeno midiático, acabam por contribuir para a produção de subjetividades e construção de identidades para homens trans que consumem conteúdos e compartilham experiências e vivencias, quer pelo reconhecimento, quer pela alteridade.


 


Referências


 


BENTO, Berenice Alves de Melo. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.


___________________________. O que é transexualidade. São Paulo: Brasiliense, 2008. (Coleção Primeiros Passos: 328).


BUTLER, Judith P. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução; Renato Aguiar. 16. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. – (Sujeito e História)


DUARTE, Marcia Yukiko Matsuuchi. Estudo de caso. In: Métodos e técnicas de pesquisas em comunicação. Jorge Duarte e Antônio Barros, (Organizadores). 2. ed. 2. reimpr. São Paulo: Atlas, 2008.


FAUSTO NETO, Antônio. Fragmentos de uma <<analítica>> da midiatização. Matrizes, v. 2, p. 89 - 105, 2008.


FERREIRA, Jairo. Uma abordagem triádica dos dispositivos midiáticos. Líbero (FACASPER), v.1, p. 137 -145, 2006.


_________________. Midiatização: dispositivos, processos sociais e de comunicação. Ecompós, v. 10, p. 1-13, 2007.


GENARI, Tayná Riberio. Processos de identificação de gênero e Transexualidades na Era das mídias digitais. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos; SP, 2017.


HOMEM TRANS MENSTRUA? - Lucca Responde #1. Canal Lucca Najar.  Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=p_3qaMy4h9Q Acesso em: 11 fev. 2020.


 


[1] GLAMOUR – Globo.com. Disponível em https://revistaglamour.globo.com/Lifestyle/Must-Share/noticia/2018/05/lucca-najar-o-youtuber-trans-que-voce-precisa-conhecer.html  Acesso em 11 de fev. de 2020.

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Possui Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2014), Mestrado em Historia do Brasil pela Universidade Federal do Piauí (2007), Especialização em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí (2005) e Graduação em Licenciatura Plena em Historia pela Universidade Federal do Piauí (2002). Atualmente é professora Adjunto II do Curso de Comunicação Social-Habilitação Jornalismo da Universidade Federal do Piauí,Campus Petrônio Portella. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFPI. Membro do Colegiado do PPGCOM da Universidade Federal do Piauí, Membro do NDE dos Cursos: Bacharelado em Comunicação Social_Habilitação em Jornalismo; Licenciatura em História/EaD/UFPI e Licenciatura em Letras Inglês/EaD/UFPI. Membro do Colegiado dos Cursos de Licenciatura em História/EaD/UFPI e Licenciatura em Letras Inglês/EaD/UFPI. Tem experiência na área de História, Comunicação e Jornalismo, com ênfase em História da Mídia, atuando principalmente nos seguintes temas: Práticas jornalísticas, História do jornalismo e da imprensa, Historia Oral e Memória, Mídia e Poder.

Publicado
2020-10-27
Como Citar
PEREIRA DA SILVA, Geovane; LIMA, Nilsângela Cardoso. Midiatização de homens trans nas redes sociais e websites: estudo de caso Lucca Najar. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 4, out. 2020. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1253>. Acesso em: 10 dez. 2022.