Comunicação Pública e plataformização no discurso de Jair Bolsonaro pelo Twitter

  • Carlos Augusto de França Rocha Júnior PPGCOM UFRGS

Resumo

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro1 (PL) chegou ao poder em 2019 com presença em perfis das principais redes sociais daquele momento: Facebook2, Instagram3, Youtube4 e Twitter5. Com números expressivos de audiência em cada uma das redes, o presidente adota o hábito de pronunciar-se sobre a vida nacional a partir destes perfis, por vezes sem enfrentamento do contraditório de jornalistas ou de oposicionistas.


Interessa saber como o presidente lida com questionamentos ou contraditório da imprensa a partir de seus tweets, as mensagens publicadas no Twitter e como o posicionamento de Jair Bolsonaro rompe a normatividade da Comunicação Pública, representando uma ameaça a democracia. A ameaça a democracia está principalmente na submissão do interesse público, o da sociedade em sua heterogeneidade, a um interesse privado, o do presidente e seus partidários em particular.


Em um cenário em vias de mediatização, impulsionado por uma política cada vez mais associada a plataformas digitais, a atuação midiatizada do presidente sob pretexto de ampliar a interlocução acaba por restringir o diálogo sobre temas de interesse público. As declarações do presidente seguem orientadas pelas lógicas das plataformas de mídias digitais, como a relacionada a engajamento, em detrimento de uma transparência de fato, com apresentação de informações de modo não limitado ou direcionado.


O trabalho busca compreender como o presidente representa a si próprio em postagens publicadas em seu perfil no Twitter a respeito de temas de governo, relacionados a plataforma política de Bolsonaro, e de Estado, de interesse da sociedade brasileira como um todo. Nas marcas textuais de Bolsonaro é possível apontar como ele apresenta posicionamentos e tenta direcionar as discussões em torno dos temas em questão aliando a ideia de um perfil comum com a posição de presidente. Desde modo evita-se temas desconfortáveis e impulsiona-se a plataforma política de modo a administrar turnos de fala e discussões.


Analisar como determinadas palavras presentes no vocabulário presidencial no Twitter estão presentes de modo associado a ideologia presidencial. Termos como “liberdade” ou “narrativas” fazem parte do vocabulário de Bolsonaro envolvendo obrigações sobre os outros atores sociais e não sobre ele. Os termos são aplicados para valorizar o posicionamento do presidente e diminuir os detratores.


Observar como temas de interesse público são abordados a partir do perfil do presidente considerando o enviesamento aplicado por Jair Bolsonaro, a fim de valorizar sua atuação e silenciar questionamentos. Com isso, fica configurada a tentativa de interditar o debate público e submeter a discussão pública ao interesse privado.


 


1. Análise de Discurso Crítica (ADC) e a presença de Bolsonaro em redes sociais


A escolha dos tweets considerou postagens de Bolsonaro publicadas entre os dias 7 e 9 de junho de 2022 a partir de algumas perspectivas de interação do presidente na rede social com veículos de imprensa profissional. A escolha é motivada pelos tweets tratarem de temas presentes com relevância no noticiário nacional como o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e Dom Phillips, o encontro de Bolsonaro com representantes do Telegram e a sanção da Lei da Liberdade Econômica.


Para a pesquisa utiliza-se quatro sequências de tweets do perfil de Jair Bolsonaro: resposta a veículos de referência, como o grupo Folha6; apresentação de programas de governo7; exposição da agenda presidencial8 e informes sobre temas presentes no noticiário9. As consequências deste modo de operar do presidente é o exercício de uma presidência sem prestação de contas ou accontability ou de modo prejudicado, em que o diálogo não é direcionado para o interesse público, mas moldado pelo interesse particular do presidente e sua defesa ideológica.


A escolha é motivada para compreender como no exercício da presidência, Bolsonaro apresenta um conjunto de falas que tentam ditar que temas podem ou não entrar em discussão e modo sob os quais estes temas poderiam ser debatidos. Optar por este conjunto de possíveis interações apontam indicações sobre o repertório de Jair Bolsonaro no Twitter que se repete na produção para outras redes, como as lives do Facebook ou a produção para o Telegram, agregado recentemente a produção do presidente.


O material será abordado a partir da Análise de Discurso Crítica (ADC), perspectiva metodológica que toma o texto como unidade de análise considerando seus aspectos linguísticos e social naquilo que os interlocutores tentam implementar de ideologia e hegemonia. Prática social e linguagem, o discurso mobiliza tanto na política como nas mídias de acordo com cada situação momentânea em prol de alianças e disputas.


Os tweets são representações linguísticas da fala do presidente, mas que também contém o modo como Bolsonaro age a respeito de determinados temas, como liberdade de imprensa e economia, bem como as identificações que ele tenta construir para si a respeito dos assuntos. Fairclough (2010) aponta uma correlação também entre os elementos da prática social de forma dialética, com discurso é concebido nas práticas sociais como atividade social, representações e constituição de identidades.


A ADC é uma ferramenta que permite analisar particularmente modos de identificar (-se), (inter)agir e representar naquilo que dá origem às categorias analíticas, os filtros pelos quais o texto passa por análise. Os tweets serão tomados a partir das categorias de Representação dos Atores Sociais e Intertextualidade. Bolsonaro opta por construir representações de si, de possíveis aliados e de seus oponentes ao mesmo tempo que utiliza para isso a produção textual de diferentes atores sociais, como ministérios e a imprensa de referência.


As categorias são fruto da estratégia de utilizar as próprias publicações dos veículos de comunicação, sem possibilidade de diálogo e publicações dos próprios ministérios. As publicações estão situadas no programa ideológico do presidente e a agenda pública, desligada das atividades de Estado e de governo para reforçar o aspecto político partidário do mandatário.


 


2. Midiatização, plataformização e Comunicação Pública


Interessa compreender em particular o desenvolvimento da Comunicação Pública em um cenário cada vez mais midiatizado, discursivo e plataformizado. A vida pública está cada vez mais mediada com o uso das mídias digitais. O bios midiático, noção elaborada por Sodré (2013) para tratar do bios focado na mídia, não se restringe aos veículos de comunicação, incluindo os elementos utilizados pelos usuários para estabelecer interações baseadas em produtos que passam a valer pela capacidade de satisfazer prazeres, como as redes sociais.


Neste aspecto, trata de um trabalho plataformizado em que a produção cultural, saúde pública, educação, jornalismo e transporte urbano são afetados pelas plataformas digitais e de aplicativos em suas lógicas algorítimicas, dataficadas e financeirizadas, como apontado por Grohmann (2020). A midiatização e a plataformização transformam o campo da Comunicação e Política, em especial a Comunicação Pública, diretamente ligada ao debate pautado no interesse público. Trata-se de um conceito diretamente ligado a cenários democráticos, em que a atuação de alguns atores fugindo ou interditando estes debates, representa uma forte ameaça a vida democrática, como apontam Weber (2020) e Rousanvallon (2020).


 


3. O defensor da “liberdade” que ameaça a democracia


O período da amostra compreende a passagem pelo Dia Nacional da Liberdade de Imprensa no momento do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira10, pontos negativos para a agenda político partidária de Jair Bolsonaro. O momento é entrecortado pela exaltação da "Lei da Liberdade Econômica", sancionada em 2019, e o encontro de Bolsonaro com representantes do Telegram11, aspectos vistos como positivos para a ideologia do presidente.


Ao tomar os tweets em profundidade é possível destacar que Bolsonaro constrói para si uma representação bastante calcada em um conceito de defesa de liberdade. Oferece-se ao interlocutor duas opções: aliado na defesa do conceito de liberdade que ele defende, ou adversário desta liberdade e por consequência do presidente. Ao demarcar a si mesmo como defensor da liberdade, a tentativa do presidente é de cristalizar um conceito para o tema e que esteja diretamente associado a concepção defendida por ele.


Neste aspecto, Bolsonaro acaba interditando o debate de modo estratégico para oferecer duas opções: ou se é a favor da liberdade que ele defende ou se é contra qualquer tipo de liberdade, algo que ele associa aos adversários políticos e também aos veículos de comunicação de referência. São representações que o presidente constroi para si e para aqueles a quem ele atribui o papel de oponentes a fim de tentar sobressair-se melhor posicionado. Exclui-se o questionamento por uma fala, ou ação autoritária, ou inação para tentar dar saliência a uma pretensa liderança que se sobressaia ao cargo e tenha aderência sobre a figura de Bolsonaro.


A fim de ilustrar com exatidão esta estratégia apresenta-se a seguir a publicação de Bolsonaro que trata do Dia Nacional da Liberdade de Imprensa. Na oportunidade para demarcar estas posições ele utiliza os textos dos adversários, como um tweet12 da seção de política do portal UOL (@UOLPolitica) que diz “No dia da Liberdade de Imprensa, Bolsonaro sugere fechar mídia brasileira”. A matéria de UOL Política13 é utilizada pelo presidente para defender um ponto de vista que ao final é exatamente aquilo que a manchete aponta, a sugestão de punir veículos de comunicação pela publicação daquilo que o presidente chama de mentiras e informações distorcidas.


 


Figura 1: Sequência de tweets de Bolsonaro utilizando matéria do @UOLPolítica


A intertextualidade desempenha um papel fundamental para a ação política de Bolsonaro no Twitter, considerando que as vozes de adversários e da imprensa são sistematicamente incluídos e excluídos para fazer sobressair o que seriam características positivas de si. Na imagem a seguir o presidente nega o que o texto jornalístico aponta, que ele defendeu o fechamento de veículos jornalísticos, dizendo que UOL Política publicou matérias falsas e por isso deveria ser fechado.


De modo indireto a representação do adversário de Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é construída a partir do que seriam declarações para cercear a liberdade de imprensa. A intertextualidade é modulada nos tweets para construir uma representação de Bolsonaro como favorável a liberdade, da qual os veículos de imprensa abririam mão ao questionar as declarações presidenciais e supostamente ignorar as falas do adversário, mesmo que a regulação da mídia mencionada por Lula não seja controle editorial.


Mais que suporte, o site de rede social é plataforma sobre a qual Bolsonaro projeta-se diante de seu público a fim de garantir apoio às suas teses. A mensagem principal delineada logo no primeiro tweet com pontos em caixa alta para despertar, ou manter, a atenção durante a rolagem dos microtextos é uma ação para pautar os apoiadores sobre os temas e posicionamentos que Bolsonaro defende e que podem ser encampados. O acionamento dos adversários acontece de modo enviesado a fim de que eles sirvam de trampolim para o programa que Bolsonaro quer defender que não compota questionamentos.


Neste cenário, a Comunicação Pública sofre com transformações que mexem profundamente com aquilo que ela tem de mais caro: a defesa da democracia. O rompimento da normatividade da Comunicação Pública, com um presidente que não se comunica com a sociedade e sim com seguidores, é um perigo pela tentativa de apropriação do interesse público para os fins particulares do presidente.


 


Considerações Finais


A tentativa de Bolsonaro com os tweets é a de estabelecer interdições e impedimentos para a Comunicação Pública optando por discussões em sem debate e diretamente relacionadas aos interesses do grupo político do presidente. Apontar as marcas textuais que representam esses impedimentos é olhar em profundidade para os perigos que Bolsonaro representa para a democracia brasileira.


Em princípio há o perigo da quebra do debate público em si, considerando que o presidente refuta o diálogo com parte dos veículos de comunicação, apenas apropriando-se do conteúdo deles no Twitter. Há a possibilidade de a discussão, ao resvalar pela lógica algorítmica, deixar o caráter público, com multiplicidade de opiniões, por algo cada vez mais privatizado, em que a opinião do líder alcança status de verdade. Com isso, a democracia deixaria de ser guiada por interesses públicos para a construção de soluções em comum, para um embate voltado para a subjugação de um grupo por outro a partir de adesões representadas por métricas.


 




  1. Referências




 


CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006.


 


CHARAUDEAU, Patrick. Discurso político. São Paulo: Contexto, 2006.


 


FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e Mudança Social. Brasília: UNB, 2010.


 


FAUSTO NETO, Antonio. Fragmentos de uma «analítica» da midiatização. MATRIZes, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 89-105, 2008. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v1i2p89-105. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/38194. Acesso em: 17 jun. 2022.


 


GROHMANN, Rafael. Plataformização do trabalho: entre dataficação, financeirização e racionalidade neoliberal. MATRIZes, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 89-105, 2008. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v1i2p89-105. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/38194. Acesso em: 17 jun. 2022.


 


HJARVARD, Stig. Midiatização: conceituando a mudança social e cultural. Revista Eptic, v. 22 n. 1, p. 106-122. issn.1518-2487. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/12188. Acesso em: 17 jun. 2022.


 


RAMALHO, Viviane; RESENDE, Viviane. Melo. Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa. Campinas, SP: Pontes: 2011.


 


VERÓN, Eliseo. Teoria da midiatização: uma perspectiva semioantropológica e algumas de suas consequências. MATRIZes, [S. l.], v. 8, n. 1, p. 13-19, 2014. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v8i1p13-19. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/82928. Acesso em: 17 jun. 2022.


 


WEBER, Maria. Helena. Balizas do campo comunicação e política. Tríade: Comunicação, Cultura e Mídia, [S. l.], v. 8, n. 18, p. 6–48, 2020. DOI: 10.22484/2318-5694.2020v8n18p6-48. Disponível em: http://periodicos.uniso.br/ojs/index.php/triade/article/view/4046. Acesso em: 14 jan. 2022.


 


WEBER, Maria Helena; COELHO, Marja Pfeifer; LOCATELLI, Carlos (Org.). Comunicação Pública e Política – pesquisa e práticas. Florianópolis: Insular, 2017.



1Jair Messias Bolsonaro http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/jair-messias-bolsonaro




2 Perfil de Jair Messias Bolsonaro no Facebook https://web.facebook.com/jairmessias.bolsonaro




3 Pertil de Jair Messias Bolsonaro no Instagram https://www.instagram.com/jairmessiasbolsonaro/




4 Canal de Jair Messias Bolsonaro no Youtube https://www.youtube.com/c/jbolsonaro/videos




5 Perfil de Jair Messias Bolsonaro no Twitter https://twitter.com/jairbolsonaro




6 Sequência em resposta ao grupo Folha https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1534624796646035457




7 Sequência sobre Lei de Liberdade Econômica https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1534486392436318208




8 Sequência sobre encontro com presidente do Telegram https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1534177536850141187




9 Sequência sobre buscas a Bruno Pereira e Dom Philips https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1535018657092407297




10 Tweet publicado pelo perfil @UOL Política https://twitter.com/UOLPolitica/status/1534293407283064832




11 No dia da Liberdade de Imprensa, Bolsonaro sugere fechar mídia brasileira https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/06/07/jair-bolsonaro-imprensa.htm




12 Bruno Pereira e Dom Phillips: a cronologia do caso, desde o início da viagem https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2022/06/15/bruno-pereira-e-dom-phillips-a-cronologia-do-caso-desde-o-inicio-da-viagem.ghtml




13 Em dia da liberdade de imprensa, Bolsonaro se reúne com Telegram https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/06/07/em-dia-da-liberdade-de-imprensa-bolsonaro-se-reune-com-telegram.htm


Publicado
2022-11-06
Como Citar
ROCHA JÚNIOR, Carlos Augusto de França. Comunicação Pública e plataformização no discurso de Jair Bolsonaro pelo Twitter. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 5, nov. 2022. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1445>. Acesso em: 18 abr. 2024.