Tempo midiatizado: Considerações sobre o aprofundamento da midiatização e a emergência da nostalgia

  • Thiago Haas Carlotto Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC

Resumo

A viagem para o passado aparece de forma intensa como vetor de significação às produções culturais conforme o aprofundamento das relações sociais midiatizadas. Objetos artesanais, quando narrados midiaticamente, são valorizados em suas características ancestrais, pontos turísticos históricos contam com atrações que prometem reviver formas de vida pretéritas, eventos com design retrô geram identidade e aceitação de público pelo apreço a tempos fugidios. Na indústria cultural, músicas que marcaram época são remixadas em versões que propõem releituras das clássicas e filmes antigos são relançados com novos recursos de animação e assim revalorizados. Nas redes sociais, sobremaneira, existe o dia do #TBT (Throwback Thursday), que significa quinta-feira do retorno ou quinta-feira da nostalgia, um momento da semana dedicado a relembrar, num movimento de busca do retorno em alhures no tempo que não o agora fugaz.


Nesta perspectiva, esta proposta de artigo busca refletir sobre a configuração do tempo ensejada pela crescente midiatização das relações sociais em sua relação com o advento da nostalgia como matriz significante cada vez mais presente no cotidiano. Busca-se questionar as formas de perceber o tempo de mundo ensejadas pela crescente disponibilidade de signos midiáticos, bem como as novas compreensões sociais do tempo e do espaço decorrentes da aceleração da temporalidade histórica na mídia. Isso num contexto em que a discursividade é progressivamente condicionada pela lógica do conflito midiático, baseado em uma busca retroativa tribal, que, portanto, encerra a promessa de bem aventurança futura da civilização (Bauman, 2017).


O referencial teórico discorrerá sobre a nostalgia, a evolução dos fenômenos midiáticos (Verón, 2013), sua incidência sobre a percepção de tempo e a ambiência sócio-técnico-discursiva que midiatização, como processo interacional de referência (Braga, 2007) constitui em sua interação tecnologicamente mediada. Em síntese, procura-se descobrir como se dá a relação entre mídia e tempo em dois vieses: como tecnologia que configura um transcorrer temporal de forma intrínseca ao seu uso; como prática social de enunciação. Significa que, no diálogo com Niemeyer (2018), procura-se entender de forma mais aprofundada esse tempo e espaço que a mídia concede à manifestação da nostalgia, ou seja, como a processualidade da midiatização gera condições à aceleração do tempo histórico e também à própria enunciação nostálgica.


É importante salientar que a nostalgia cria no presente um vínculo com um outro tempo estabilizado do qual se conhece seus personagens e seu futuro. Katharina Niemeyer (2014) define o sentimento nostálgico como o desejo agridoce por tempos e espaços do passado. Trata-se de uma lembrança idealizada, ou de uma fascinação com a própria fantasia, causada por um sentimento de perda e deslocamento no presente, como afirma Svetlana Boym (2017) que a entende como uma emoção característica da nossa época. Conforme a estudiosa russa, esta palavra provém de duas raízes gregas: nostos, que remete “voltar à casa” e algia, “anseio” que, apesar de sua etimologia, foi criada pelo médico suíço Johannes Hofer, em sua tese de 1688.


Esse sentimento se faz mais presente conforme aprofunda-se a possibilidade de materializá-lo na mídia. A capacidade semiótica do sapiens se expressa nos fenômenos midiáticos, que consistem na exteriorização dos processos mentais humanos em dispositivos materiais, que conferem autonomia e persistência aos objetos significantes, conforme Verón (2013). Desta forma, os fenômenos midiáticos estão presentes em todas sociedades humanas e constituem marcos ao longo da evolução do sapiens, afirma o semiólogo. Tais processos semióticos, de exteriorizações visuais icônicas e de sequências indiciais de operações técnicas fez com que o Homo sapiens deixasse de estar alinhado somente com uma posição estrutural no espaço-tempo e geraram condições para o surgimento da linguagem. Assim, um objeto significante passava a significar e circular entre comunidades e gerações da espécie, de forma a permitir a acumulação do conhecimento, pondo as narrativas contadas ao longo dos tempos em perspectiva temporal.


Foi somente no momento em que os signos foram exteriorizados como tais e passaram a transmitir significados que tornou-se possível o aperfeiçoamento das técnicas da espécie e sua consequente evolução intelectual, processo esse que se constituiu por centenas de milhares de anos até chegar, com a invenção da escrita, à história narrada tal qual a conhecemos atualmente:


 


La asociación entre fenómeno mediático y aceleración del tiempo evolutivo se confirma a lo largo de toda la historia del sapiens, como así también el carácter acumulativo del proceso; vale decir que la aceleración se acelera a medida que los fenómenos mediáticos se suceden. (VERÓN, 2013, p. 176, grifos do autor)


 


A percepção do tempo, assim, é afetada pela tecnologia que, por conseguinte, altera a evolução da espécie, na medida em que o avanço da midiatização permite a materialização de signos, colocando a história em perspectiva. A aceleração da evolução humana transcorreu, assim, na exata proporção da ampliação dos fenômenos midiáticos e seus processos de semiose, numa condição que se repete ao longo dos tempos. Nossos ancestrais transformaram objetos táteis em signos visuais que, por sua vez, perpassaram por gerações, ampliaram os processos cognitivos da espécie e geraram novas formas de interação com o ambiente e a comunidade pré-histórica. A emergência de dispositivos técnicos, desse modo, ampliou as modalidades de comunicação preexistentes, integrando-as às novas situações interacionais e gerando novas compreensões de tempo. Isto é, o objeto resultante do trabalho intelectual de centenas de milhares de anos tornou-se base à evolução humana, num processo relacional cumulativo.


Desta forma, a maior parte da história dos dispositivos midiáticos — do surgimento da escrita, passando pela fabricação da prensa por Johannes Gutenberg no século XV, até o aparecimento dos dispositivos de gravação de som no início do século XIX — tornou possível a midiatização da temporalidade, isto é, o enquadramento e o sequenciamento do tempo. A fotografia, por exemplo, tornou possível a captação do instante fugaz que, inexoravelmente, se transforma em passado, o que possibilitou fixar marcas de seu momento de produção e constituir sequências temporais nos procedimentos de montagem. Já a voz e a música materializadas, geraram o que Verón (2013) chama de espaços de inscrição (como o rádio, o aparelho de som, a TV) que, por sua vez, condicionavam a produção e o reconhecimento dos signos. Em tais espaços, o tempo pôde ser imaginariamente reinvestido e ressignificando, tal qual a promessa simbólica da nostalgia.


A aceleração midiática se ampliou com o desenvolvimento dos meios de comunicação no fim do século XIX e a emergência das mídias digitais neste início do século XXI, o que reconfigurou o tráfego de informações engendrado pelos meios. Se antes, eles detinham o acervo, a organização e a narração dos fatos mais importantes em uma periodicidade configurada num espaço de inscrição diário, o avanço midiático no tecido social reconfigura tal conjuntura constituída nos últimos 200 anos.


 


La especificidad del momento que estamos discutiendo es que, por primera vez en la historia, hay varios dispositivos que hacen posible la mediatización de la temporalidad y que a partir de fines de la Primera Guerra Mundial, convertidos em procesos industriales y comerciales, están operando al mismo tiempo, el cine, la grabación del sonido y la radio. VERÓN, 2013, p. 258)


 


Deste prisma, vislumbra-se o quanto a acumulação midiática acelera a compreensão da evolução humana, pondo-a em perspectiva como jamais visto. A tecnologia possibilita a acumulação e constituição de um acervo da memória que influencia a composição de forma e conteúdo. A máquina do tempo, termo utilizado por Verón (2013), está disponível no presente; as contingências da memória midiatizada estão à espreita para gerar releituras e reapropriações pelos sujeitos. Niemeyer (2018), inclusive, aponta que o acúmulo e o aumento da disponibilidade de imagens, textos e sons do passado são uma das razões que podem amplificar e desencadear a nostalgia.


Ao produzir a autonomia e persistência no tempo de emissores e receptores, os fenômenos midiáticos têm como consequência a descontextualização do significado, pois o objeto significante materializado fica passível às ressignificações próprias de acordo com os espaços e tempos que ocupa.


Por um lado, tal explanação busca fazer ver como a midiatização configura um tempo de mundo inédito na evolução da espécie, marcado pela aceleração contínua, propiciada pela circulação e sobre-exposição de textos, imagens e informações, agora passíveis de acesso em tempo real na rede. Por outro, procura demonstra que a nostalgia, enquanto sintoma social, surge em nova escala neste panorama sócio-técnico-discursivo que permite acessar registros materializados e reinvesti-los de significados.


Se Svetlana Boym (2017) refere-se à nostalgia como condição psicológica que traz em seu cerne a busca por um tempo de mundo diferente do atual, gerada pelo desalento com o presente, podemos perscrutar uma relação próxima entre nostalgia e mídia. Enquanto a emergência de fenômenos midiáticos proporciona a aceleração do tempo histórico, como lembra Verón (2013), a volta ao lar com uma compreensão de tempo social diversa do atual surge como uma proposta de sentido positiva ao sujeito desnorteado no contemporâneo, que se relaciona com uma profusão inimaginável de signos midiáticos, conforme se intensifica e aprofunda midiatização da temporalidade.


 


Referências

 


BAUMAN, Zygmunt.. Retrotopia. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, c2017.


 


BOYM, Svetlana. Mal-estar na nostalgia. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 10, n. 23, jul. 2017. ISSN 1983-9928. Disponível em: <https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/1236/678>. Acesso em: 06 jun. 2022. doi: https://doi.org/10.15848/hh.v0i23.1236.


 


BRAGA, José Luiz. Midiatização como processo internacional de referência. In: MÉDOLA, Ana Sílvia; ARAÚJO, Denize Correa; BRUNO, Fernanda (Org.). Imagem, visibilidade e cultura midiática: livro da XV Compós. Porto Alegre: Sulina, 2007.


 


NIEMEYER, Katharina (org.). Media and nostalgia: yerning for the past, presente and future. Basingstoke: Palgrave Macmilan, 2014.


 


NIEMEYER, Katharina. O poder da nostalgia. In: SANTA CRUZ, Lucia, FERRAZ, Talitha. Nostalgias e mídia: no caleidoscópio do tempo. Rio de Janeiro: E-Papers, 2018.


 


VERÓN, Eliseo. La semiosis social, 2: ideas, momentos, interpretantes. Buenos Aires: Paidós, 2013.

Publicado
2022-11-05
Como Citar
CARLOTTO, Thiago Haas. Tempo midiatizado: Considerações sobre o aprofundamento da midiatização e a emergência da nostalgia. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 5, nov. 2022. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1464>. Acesso em: 27 jan. 2023.