As representações sobre a democracia na página on-line da Frente Brasil Popular entre julho e agosto de 2016

  • Solange Ines Engelmann Universidade Federal Fluminense

Resumo

As representações sobre a democracia na página on-line da Frente Brasil Popular entre julho e agosto de 2016[1]

 


The representations of democracy on the Frente Brasil Popular online page betwenJuly and August 2016


 


Palavras-chave: Representações Sociais; Democracia; Mídias digitais.


 


1 Introdução


 


No final do século XX surge a sociedade em rede (CASTELLS, 2006), baseada no desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação (TICs), que provoca mudanças profundas nas relações sociais, nos sistemas políticos, culturais, etc. Já ao final de 1960 é criada a Arpanet, “uma rede de computadores montada pela Advanced Research Projects Agency (ARPA)”, (CASTELLS, 2003, p.15) através de um projeto do Departamento de Defesa norte-americano com o intuito de superar a tecnologia soviética. A partir disso, para Castells (2006), os cidadãos se tornam sujeitos ativos nos processos comunicativos se tornando produtores de conteúdo. E o processo de comunicação e informação passa a ser mediado pelo ciberespaço (LÉVY, 1999), que estabelece novos canais de comunicação, interação e expressão.


No contexto das lutas sociais no Brasil, a partir de 2013 passam a ocorrer grandes manifestações públicas. Porém, em 2015 e 2016 essas manifestações adquirirem um caráter de ataque e defesa do Governo Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT). Após o impeachment da ex-presidente, em agosto de 2016 e os tensionamentos na sociedade brasileira, em relação ao que foi considerado uma ruptura do processo democrático por grupos e segmentos populares (RUFFATO, 2016), percebe-se a intensificação no uso das mídias digitais por organizações, movimentos sociais, sindicais, estudantis e partidos progressistas, na defesa da democracia, como pauta unitária de luta nacional. Parte desses grupos criam em 2015, em Belo Horizonte, Minas Gerais, a Frente Brasil Popular, que passa a disputar a narrativa sobre os sentidos da democracia e a luta contra a retirada de direitos no espaço público, por meio de mobilizações massivas, aliadas a estratégias de comunicação popular nas mídias digitais mantidas pela organização.


Diante disso, a pesquisa busca compreender as representações sobre a democracia brasileira colocadas em circulação pela Frente Brasil Popular, por meio da sua página on-line[2], no período de julho e agosto 2016. Que se refere ao mês anterior e o qual se concretizou o impeachment da ex-presidente Dilma, encerrado em 31 de agosto de 2016, com a confirmação de cassação ao mandato pelo Senado Federal (SENADO FEDERAL, 2016). Procura-se identificar e analisar as narrativas sobre a democracia, na defesa das regras do jogo democrático e denúncias sobre ameaças a direitos. A perspectiva epistemológica apoia-se na Teoria das Representações Sociais (TRS) de Moscovici (2013), e a abordagem metodológica na Análise de Conteúdo (AC) de Bardin (1977) para a investigação textual do conteúdo informativo na página on-line. Neste recorte utilizaremos a técnica de pesquisa qualitativa on-line, mediante Flick (2009), para compreensão dos sentidos dos discursos postos em circulação. E com base em Spink (2013), busca-se identificar e interpretar os principais enunciados simbólicos das narrativas, bem como na elaboração dos mapas imaginários sobre o objeto de pesquisa analisado.


 


2 As representações sociais e as mídias digitais


 


As representações estão relacionadas diretamente à comunicação, pois, estabelecem-se na construção de sentidos e saberes, sendo uma maneira específica de compreender e comunicar. Para Moscovici (2013, p. 46) o objetivo das representações é “[...] abstrair sentido do mundo e introduzir nele ordem e percepções, que reproduzam o mundo de uma forma significativa.” A comunicação se estabelece por meio de vínculos entre os indivíduos, comunidades e grupos sociais que resultam na criação de representações de si, dos outros e de distintas realidades sobre elementos concretos e abstratos que circundam a sociedade em diferentes épocas.


Jovchelovitch (2000, p.175), salienta que “as representações sociais são formas de mediação simbólica firmemente radicadas na esfera pública.” O que a torna um espaço da realidade intersubjetiva. É neste terreno que as representações “são geradas, se cristalizam e se transformam”, crescem e tomam forma. Assim, nas sociedades mediatizadas os meios de comunicação se tornam agentes importantes na constituição de um espaço público e produzem significados e valores hegemônicos, assumindo o papel de “ator chave” (JOVCHELOVITCH, 2000) do poder.


Ao divulgar informações na esfera pública a imprensa adquire papel central, pois ao interpretar os acontecimentos não o faz com total isenção e imparcialidade. Dependendo da abordagem e argumentos utilizados pode subverter a ordem dos fatos, interferindo na construção da memória coletiva. Desta forma, a esfera pública surge como a esfera do debate público, já que “[...] o seu efeito” depende da “disponibilidade das posições expostas ao juízo público, o seu propósito não é simplesmente a criação de sociabilidade, mas o convencimento demonstrativo através da disputa argumentativa conduzida com razoabilidade” (GOMES, 1999, p. 211). Assim, a esfera pública assume papel importante nos processos de interação entre os indivíduos e se consolida como terreno central na atuação da sociedade civil.


Nesse sentido, Bobbio (2000, p.30) aponta como definição mínima do conceito de democracia um conjunto de regras e procedimentos legais responsáveis por definir “[...] quem está autorizado a tomar as decisões coletivas e com quais procedimentos”. Assim, um sistema democrático funciona com o estabelecimento de regras e normas responsáveis pela definição de quais indivíduos adquirem autorização para desempenhar o papel de representantes de uma maioria social e tomar as decisões coletivas. E o funcionamento de um governo democrático se estabelece com base na alternância de grupos no poder, mediante eleições livres através do voto, que garante a escolha dos representantes de uma maioria social (BOBBIO, 2000). Portanto, o processo eleitoral é considerado central para assegurar as regras do jogo nos governos representativos.


Nesse contexto, com o avanço tecnológico no final do século XX é criada a rede mundial de computadores - www (world wide web), idealizada nos EUA nos anos 1960, como instrumento de comunicação militar (CASTELLS, 2003). A internet adquire abrangência global – com capacidade de envio de dados, imagens e sons – criando novas plataformas de comunicação e informação que geram mudanças políticas, sociais e econômicas. A sociedade em rede (CASTELLS, 2006) articula-se por meio de fluxos globais de informações que influenciam as relações sociais e afetam o caráter da esfera pública, pois, o ciberespaço converte-se em ambiente de trocas, compartilhamentos e debates de interesse coletivo.


Nessa perspectiva, ainda que a internet seja vista com um possível potencial “democratizador”, conforme Castells (2006), essa concepção tem um caráter utópico, e necessita de cautela com a forma que adquire (e adquiriu) essa tecnologia no atual estágio do capitalismo globalizado, não estando isenta das contradições capitalistas, na luta por direitos, pela democracia e no acesso à cidadania. Contudo, o ciberespaço, possibilita a criação de novos canais de comunicação, como portais on-line, blogs e as redes sociais, que estabelecem uma comunicação direta entre os usuários nas duas pontas do processo comunicativo (emissor e receptor), e estimula a ampliação do debate público para a rede virtual.


 


3 Resultados e discussão


 


Com os tensionamentos e disputas em torno dos sentidos que a democracia assumiu no país, a partir de 2013, parte das organizações progressistas consideraram o afastamento definitivo da ex-presidente Dilma, em agosto de 2016 um golpe contra a democracia brasileira (RUFFATO, 2016). Nesse cenário, a Frente Brasil Popular organizou ações massivas de protestos nas ruas e mídias digitais, para disputar a narrativa em torno da defesa da democracia brasileira e a manutenção de direitos dos trabalhadores/as brasileiros/as. Busca-se nesse sentido, compreender as representações sobre a democracia brasileira colocadas em circulação pela Frente Brasil Popular, por meio da sua página on-line, nos meses de julho e agosto de 2016. A partir da Teoria das Representações Sociais (TRS) de Moscovici (2013), e a abordagem metodológica da Análise de Conteúdo (AC) de Bardin (1977) para a investigação textual.


A Frente Brasil Popular foi criada em 5 de setembro de 2015, em uma Conferência Nacional Popular, em Belo Horizonte/MG, com a participação de cerca de 80 organizações e movimentos sociais, partidos políticos, entre outros. Um documento no site da entidade afirma que a entidade foi criada “para defender os direitos e aspirações do povo brasileiro, (...) a democracia e outra política econômica, (...) a soberania nacional e a integração regional, para defender transformações profundas em nosso país (...)” (FRENTE BRASIL POPULAR, s.n., 2015). Em seguida, a organização passou a usar estratégias de comunicação popular e alternativa nas mídias digitais, com um portal on-line e perfis em redes sociais[3].


A home da página on-line da Frente Brasil Popular é de fácil navegação, no topo, aplicada em um fundo verde e imagem de multidão, há uma arte em xadrez com diversas cores e o nome da entidade, que faz referência à diversidade de vozes dos segmentos populares (figura 1). Abaixo há uma linha central com tópicos os seguintes links: Quem somos, PPE, Notícias, Logo, Publicações e Multimídia, que dão acesso ao histórico da organização, compromissos, pautas, parceiros, logos, notícias, artigos, publicações institucionais, galerias de áudios, imagens e vídeos; os mesmos tópicos com links, se repetem ao final da home. No miolo da home (da esquerda para direita) há um espaço de destaque com links para as últimas notícias, ao lado direito localiza-se um espaço para destaques de “Artigos” mais recentes, já abaixo, há um espaço reservado para destaque do conteúdo “Multimídia” e à direita o tópico “Na Rede”, com links para acessar os perfis da organização nas redes sociais (Facebook e Twitter)[4]. E abaixo, no centro da página há um espaço para quem tiver interesse em fazer o cadastro para receber os boletins informativos da Frente.


 


Figura 1 – Home da página on-line da Frente Brasil Popular



Fonte: https://www.frentebrasilpopular.org.br


 


Para selecionar as publicações informativas de julho e agosto de 2016 da organização, acessamos o link de “Notícias” e escolhemos a opção “Tudo”, por reunir um conteúdo mais completo. Foram encontradas 21 notícias, e a partir das palavras-chave: democracia, golpe, golpista, impeachment, Temer, Dilma e direitos, selecionamos 16 títulos e subtítulos relacionados ao assunto. Nesse recorte, o termo mais frequente nas publicações de julho de 2016 é “golpe”, e em agosto de 2016, o termo que aparece com maior frequência é “democracia”. A partir dessa pré-análise, iremos avançar na análise do conteúdo informativo da página on-line da organização, acerca das representações sobre a democracia no Brasil colocadas em circulação pela plataforma.


Diante da importância do ciberespaço na sociedade em rede, como novo ambiente de visibilidade pública, percebe-se a ampliação dos debates públicos para o virtual, por meio das mídias digitais, principalmente em relação a representações sociais sobre demandas coletivas de segmentos populares da sociedade civil, em cidadania e direitos.


 


Referências

 


BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Persona Edições 70, 1977.


 


BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.


 


CASTELLS, M. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.


 


CASTELLS, M. A sociedade em rede. 9ª ed. São Paulo: Paz e Terra, v.1, 2006.


 


FLICK, U. Introdução à pequisa qualitativa. 3ª ed. Porto Algre: Artmed, 2009.


 


FRENTE BRASIL POPULAR, 2015. Quem Somos: Compromissos da Militância. Frente Brasil Popular, São Paulo, Brasil. Disponível em: http://frentebrasilpopular.org.br/conteudo/compromissos-da-militancia/. Acesso em: 10 jun. 2022.


 


FRENTE BRASIL POPULAR, 2015. [Site Oficial] Frente Brasil Popular, São Paulo, Brasil. Disponível em: https://www.frentebrasilpopular.org.br. Acesso em: 11 jun. 2022.


 


GOMES, W. Esfera pública: política e media - II. In: RUBIM, A. A. C.; BENTZ, I. M. G.; PINTO, M. J. Práticas discursivas na cultura contemporânea. São Leopoldo: Unisinos, 1999. p. 203-231.


 


JOVCHELOVITH, S. Representações sociais na esfera pública. A construção simbólica dos espaços públicos no Brasil, Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil, 2000.


 


LÉVY, P. Cibercultura. Editora 34: São Paulo/SP, 1999.


 


MOSCOVICI, S. Representações Sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.


 


RUFFATO, L. O golpe contra Dilma Rousseff. El País Brasil, [s.n.], 1 set. 2016.


 


SENADO FEDERAL. Impeachment de Dilma Rousseff marca ano de 2016 no Congresso e no Brasil. Agência Senado, 28. dez. 2016. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/12/28/impeachment-de-dilma-rousseff-marca-ano-de-2016-no-congresso-e-no-brasil. Acesso em: 25 jun. 2022.


 


SPINK, M. J. Desvendando as teorias implícitas: uma metodologia de análise das representações sociais. In: Guareshi, P.; JOVCHELOVITCH, S. (Orgs). Textos em Representações Sociais. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.


 


[1] Trabalho apresentado ao V Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais. PPGCC-Unisinos. São Leopoldo, RS.


[2] Disponível em: www.frentebrasilpopular.org.br. Acesso em: 20 jun. 2022.


[3] Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp.


[4] As publicações mais recentes da página on-line da organização são de maio de 2019, já as redes sociais apresentam publicações atuais, indicando que se encontram em funcionamento. Porém, nesse trabalho optamos por iniciar as pesquisas a partir da página on-line da entidade.

Publicado
2022-11-06
Como Citar
ENGELMANN, Solange Ines. As representações sobre a democracia na página on-line da Frente Brasil Popular entre julho e agosto de 2016. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 5, nov. 2022. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1465>. Acesso em: 18 abr. 2024.