Imaginários do passado e disputas de sentido do presente: a semiose midiatizada da Guerra Russo-Ucraniana

  • Igor Fernando Mallmann Unisinos

Resumo

1 Apontamentos iniciais


 


As hostilidades deflagradas em larga escala em fevereiro de 2022 entre Rússia e Ucrânia têm apresentado graus profundos de complexificação nas esferas militar, geopolítica, econômica, cultural e – o que aqui se trabalha – comunicacional. A guerra abriu inúmeras disputas de sentido sobre a memória do passado e a representação do presente. No ambiente comunicacional brasileiro, a temática da guerra penetrou nas disputas simbólicas locais, sendo capitalizada nos embates políticos e trazendo à tona imaginários historicamente constituídos – como aqueles relacionados ao anticomunismo e à memória da União Soviética. A proposta, aqui, é investigar esse emaranhado de sentidos em disputa na semiose midiatizada a partir de publicações sobre a guerra da Ucrânia no Twitter, mais especificamente no perfil Hoje no Mundo Militar. Para tal, selecionou-se um conjunto de observáveis composto por postagens que atestam a aparição de bandeiras da extinta União Soviética durante o atual conflito, além das interações contidas na seção de respostas aos tweets. A pergunta que guia essa investigação é: de que maneira as lutas simbólicas midiatizadas mobilizam  imaginários sociais ligados à representação da Rússia na Guerra da Ucrânia e ao anticomunismo no Brasil?


 


2 Interfaces teóricas


 


Para tensionar teoricamente esse material empírico mobilizo a interface com a tríade Imaginário, Real e Simbólico, cuja reflexão parte da obra de Jacques Lacan (2007), em uma aproximação à semiose e os signos classificados por Peirce (2017) como ícones, índices e símbolos.  Nessa perspectiva, trabalha-se a ideia do imaginário enquanto elemento que confere consistência a nossa experiência no mundo. Na problematização desta pesquisa, é por meio do imaginário que temas inicialmente distantes passam a afetar os sujeitos no nível das sensações, crenças e emoções, entrando no nível mais imediato de temas do cotidiano. Assim, operações de agenciamento fazem com que essa mobilização de imaginários impacte no âmbito do real. Esse real, além de sua condição de concreto, tem, na semiose, uma dimensão que se manifesta apenas por índices. Trata-se daquilo que não é dito, não é explicitamente simbolizado, que passa por eufemizações, mas está subjacente na circulação de sentidos. O registro simbólico é entendido como a zona do exercício do poder das normas e distinções sociais. A semiose, além de abrigar relações de agenciamento entre a tríade Imaginário, Real e Simbólico, também se caracteriza como expressão das lutas simbólicas (BOURDIEU, 2011) da sociedade. Considera-se que a circulação consiste, justamente, “na disputa, no embate pela produção de sentido que se realiza no âmbito dos dispositivos midiáticos” (ROSA, 2019b, p. 22-23).


            Compreende-se a semiose a partir da Guerra da Ucrânia como parte de processos de uma sociedade midiatizada. Mais especificamente, ressalta-se, na midiatização, a indissociável relação entre o estágio atual do capitalismo (financeirização) e aquilo que ocorre no âmbito comunicacional, conforme problematização de Sodré (2021). Por fim, busca-se investigar, na circulação midiática, as relações entre os imaginários midiáticos e imaginários que emergem do social, referenciando-se teoricamente em Rosa (2019a).


 


3 Inferências empíricas


 


Desde o início das operações militares na Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, uma narrativa muito propagada na cobertura midiática brasileira é a que enfatiza um certo ressentimento dos russos com o fim da União Soviética e a separação da Ucrânia. Essa perspectiva sugere que a motivação da guerra seria algo “do passado”, de alguma forma desviando o foco das complexidades geopolíticas atuais. Emerge uma oposição entre o antiquado e o novo, a retrógrada Rússia em busca da glória de outrora e a jovem Ucrânia, um país que escolheu o modo de vida ocidental e moderno. As insinuações que o presidente Vladimir Putin gostaria mesmo de restaurar a União Soviética aparecem até mesmo na fala do presidente estadunidense[1].


            A partir da observação da cobertura da guerra feita pelo perfil Hoje no Mundo Militar no Twitter, percebe-se que postagens que traziam vídeos ou fotografias atestando a aparição da bandeira soviética geraram intensas discussões a respeito do passado soviético e de questões políticas atuais. A seguir, a Figura 1 e a Figura 2 trazem duas publicações sobre essas aparições de variações da bandeira soviética, com o recorte de alguns comentários nos quais se manifestam esses temas das lutas simbólicas atuais:  


 


 


Figura 1 – Post e comentários sobre bandeira hasteada


Fonte: Twitter


 


 


Figura 2 – Post e comentários sobre bandeira em lançador de foguetes


Fonte: Twitter


 


 


            Na Figura 1, o Hoje no Mundo Militar relata o hasteamento da Bandeira Soviética da Vitória em Melitopol e da execução, nos alto-falantes, de uma canção soviética composta na Segunda Guerra Mundial. Os comentários trazem sujeitos com posições diferentes em relação ao conflito e à memória da União Soviética. Uma parte das interações tem um tom de alerta em relação aos russos e ao comunismo (“vão tomar todos os territórios do leste europeu e reconstruir o império”), de certa forma reverberando uma abordagem comum na mídia ocidental sobre o conflito. Há, também, críticas em relação a regimes socialistas/comunistas, que supostamente espalham a fome entre a população. Outro grupo de comentários traz um tom de chacota para com o presidente Bolsonaro e seus seguidores, pelo apoio a Putin, incluindo uma piada a respeito do finado ideólogo bolsonarista Olavo de Carvalho. Um meme muito compartilhado em postagens que relacionam Rússia e União Soviética é aquele que afirma que os Simpsons previram o retorno do regime soviético, demonstrando como a cultura popular também se mistura às interações sobre a guerra.


            A Figura 2 traz uma publicação com outra aparição da bandeira, dessa vez em um veículo russo que serve de plataforma para lançamento de foguetes. Novamente, trata-se da Bandeira Soviética da Vitória e o Hoje no Mundo Militar traz um breve contexto de seu uso na Segunda Guerra Mundial. As interações seguem padrões semelhantes àquelas observadas na postagem anterior, porém com referências mais diretas à realidade brasileira. Há um comentário que ataca, em tom de ridicularização, acadêmicos da USP (“eis o momento onde estudantes de história da USP têm orgasmos”). É possível situar esse comentário também em um imaginário compartilhado por grupos de direita no Brasil, os quais acusam as universidades em geral como locais de doutrinação ideológica de esquerda. Relevante assinalar que muitos dos indivíduos que comentam nessas publicações trazem bandeiras junto aos seus nomes de perfil, demonstrando qual seu alinhamento ou preferência. No caso desse comentário sobre a USP, o autor tem no perfil a bandeira da Ucrânia. Há, novamente, alguém comentando sobre a fome como característica dos regimes socialistas e um outro perfil afirmando que o comunismo é “mil vezes pior que o nazismo”. Ainda que em menor número, ocorrem manifestações de apoio à Rússia ou que comparam a guerra contra a Ucrânia à guerra contra a Alemanha Nazista. Isso demonstra que o público do Hoje no Mundo Militar é heterogêneo, ideologicamente falando.


            A partir dos materiais apresentados até aqui, é possível fazer algumas inferências empíricas:



  1. a bandeira soviética aparece, do ponto de vista midiático, como evidência física da ligação da atuação da Rússia com o regime soviético do passado e todos os imaginários associados. Na circulação, as interações demonstram o reforço que a aparição da bandeira confere ao tom conspiratório de uma suposta ameaça comunista à espreita;

  2. no entanto, há um outro movimento de semiose que se apropria do conteúdo publicado para outros fins que não aqueles previstos pela produção. A associação com a bandeira soviética serve, por exemplo, para ironizar a visita de Bolsonaro a Putin, de certa forma ridicularizando as contradições e inconsistências de sentido do movimento bolsonarista. Importante notar, porém, que essa estratégia também implica, em maior ou menor grau, uma representação negativa da Rússia;

  3. Existem manifestações positivas em relação à memória soviética (como, por exemplo, a sigla URSS com um emoji de carinha apaixonada), porém em grande parte das elaborações transparece um certo constrangimento em manifestar apoio à Rússia. Mesmo na publicação da CartaCapital (com um público mais à esquerda), ao noticiar o aparecimento da bandeira soviética, observa-se um número muito reduzido de interações que manifestem simpatia aos russos ou à referência da vitória sobre os nazistas. A inferência aqui é de que os imaginários de aversão à Rússia ou, mais amplamente, anticomunistas tem uma penetração mesmo em setores classificados como progressistas. A cobertura midiática sobre a guerra leva à cautela em se exaltar o passado soviético (mesmo que seja a vitória sobre o nazismo);

  4. em todas as publicações observadas aparece, nas respostas, algum tipo de vinculação com a realidade brasileira, seja em movimentos de oposição ao presidente Bolsonaro, por um lado, ou em ataques a instituições ou setores da população que supostamente apoiam o extinto regime soviético. Ou seja, a temática da guerra é capitalizada para mobilização nas lutas simbólicas cotidianas, em um movimento de distinções e identificações, um jogo de inimigos e aliados.


 


 


4 Considerações


 


Em se tratando dos vídeos e fotografias da Bandeira Soviética da Vitória, geralmente sua origem se caracteriza como uma ação de propaganda por parte da Rússia (seguindo a ideia de que os russos derrotaram os nazistas em 1945 e estão agora derrotando os nacionalistas e neonazistas ucranianos). Porém, como observado, essas postagens ganham um novo viés ao adentrarem o espaço midiático brasileiro, servindo como uma espécie de denúncia de que a Rússia estaria ambicionando restaurar a União Soviética. São movimentos típicos de uma sociedade midiatizada, na qual os signos de caráter informativo seguem um percurso de apropriações e disputas, em um ambiente comunicacional compartilhado por instituições (jornalísticas ou não) e sujeitos.


            Ao evocar a memória soviética, os sentidos e imaginários em disputa se espraiam, encontrando terreno fértil para proliferar no âmbito de veículos de comunicação e sujeitos que acionam a retórica do anticomunismo, seja ele mais velado ou explícito. Esse movimento serve a diferentes propósitos, alimentando a construção midiática da Rússia como inimigo a ser combatido, mas também operando como combustível para as afirmações de tom conspiratório contra instituições e movimentos de esquerda aqui no Brasil, por exemplo. Essa parte da semiose observada segue de certa forma uma lógica já vista em outras ocasiões: elege-se um inimigo que reúna todas as características mais odiosas para deslegitimar qualquer forma de oposição ao modelo societário seguido pelo ocidente neoliberal nos campos da política, da economia ou da cultura.


            Mas isso não é tudo, pois então surgem particularidades que tornam o caso observado diferente. Um dos pontos que se destacou na análise é a entrada da temática da guerra no cenário das disputas em torno da eleição presidencial de 2022. Em especial, a relação entre Putin e Bolsonaro gerou divisão dentro do campo da esquerda e da direita, evidenciando que as referências simbólicas a respeito da questão estão longe do consenso. O que se pode afirmar é que os imaginários atrelados ao anticomunismo, de um lado, e a construção simbólica da Rússia como o inimigo da vez, de outro, aparecem em alguma medida nas elaborações de representantes de diferentes ideologias políticas.


 


Referências

 


 


BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2011.


LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: o sinthoma, 1975-1976. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.


PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2017.


ROSA, Ana Paula da. Imagens em espiral: da circulação à aderência da sombra. MATRIZes, [S. l.], v. 13, n. 2, p. 155-177, 2019a. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/150455. Acesso em: 22 dez. 2021.


______. Circulação: das múltiplas perspectivas de valor à valorização do visível. Intercom – RBCC, São Paulo, v. 42, n. 2, p.21-33, maio/ago. 2019b. Disponível em: <http://portcom.intercom.org.br/revistas/index.php/revistaintercom/article/view/3137/2286>. Acesso em: 20 out. 2020.


SODRÉ, Muniz. A sociedade incivil: mídia, iliberalismo e finanças. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2021.


 


 


 


[1] Matéria sobre esse pronunciamento: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60515252. Acesso em 14 mai 2022.

Publicado
2022-11-06
Como Citar
MALLMANN, Igor Fernando. Imaginários do passado e disputas de sentido do presente: a semiose midiatizada da Guerra Russo-Ucraniana. Anais de Resumos Expandidos do Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais, [S.l.], v. 1, n. 5, nov. 2022. ISSN 2675-4169. Disponível em: <https://midiaticom.org/anais/index.php/seminario-midiatizacao-resumos/article/view/1538>. Acesso em: 18 abr. 2024.